Não tínhamos muita coisa, mas tínhamos o essencial para uma criança: liberdade e alegria. Por causa desse nosso ideal resolvemos construir um campo de futebol. O lugar era alto e dava para ver boa parte da cidade de São Paulo. O local era anteriormente parte do Sítio do Mombaça, onde até pouco tempo havia reminiscências de Mata Atlântica e era caminho para Itapecerica da Serra.
O caseiro do local pretendido vivia junto com a família e mantinha toda a área sobre sua guarda. Possuía um casal de filhos e o menino Edson Junior era nosso amigo. Falamos com seu pai que nos deixou fazer o campo pretendido, mas haveria algumas regras a seguir: Tínhamos que capinar a vegetação rasteira coberta de sapé, matéria-prima dos telhados, e, além disso, de vez em quando, tínhamos que “ensarilhar” água e encher um tambor de 180l para abastecer água para uso doméstico. Todas as regras impostas foram aceitas e, deste modo, cada integrante trouxe as inchadas e foices da lida de seus pais e começou, assim, nosso PAC em prol de nós mesmos: "projeto às crianças".
Era uma verdadeira equipe e em pouco tempo tínhamos todo o campo capinado e com traves que a gurizada em empreitada cortou e limpou de troncos da própria mata. Foi uma festa, um planejamento que faria inveja a qualquer estrutura de métodos e processos de qualquer grande empresa. Faltava o essencial: a bola! Para isso precisávamos de recursos, assim, cada "moleque" do grupo arranjou, ao seu modo, o mínimo necessário e na soma do montante bastou para adquirir uma bola de capotão número cinco. Era uma bola grande, daquelas que quando encharcada pesava mais do que o peso natural e tonteava o "cocoruco" de quem ousasse cabecear.
Tudo pronto para as grandes pelejas, batalhas inesquecíveis dos meninos livres como os pássaros, fugitivos em busca de aventura. Deste modo apareciam todos como em um passe de mágica, em um determinado horário, depois da aula, um grupo fiel aos seus ideais. Saíamos em carreata, ou melhor, em "apérreata" em direção ao "nosso" campo, afinal ficamos algum tempo "fazendo a terraplenagem" com nosso suor. Hoje, seria mais fácil construir: era só requer verba para o "evento da copa", ou uma "bolsa auxílio futebol", afinal, há dinheiro para tudo, quem sabe não seríamos parte desses investimentos.
No local, depois de tudo saneado conforme o trato verbalizado, cada qual puxava um balde d'água até encher o latão até a boca, depois era só alegria, da turma do "arranca toco" nas disputas lúdicas até a exaustão, mas gratificante, virava 6 e acabava 12, as vezes escurecia e o jogo não terminava! Ao fim da "guerra", íamos beber água limpa do poço que abastecia a casa, pois naquele tempo não se comprava água! Este local era tão desabitado que havia o lixão do Frigorífico Eder e da firma Avon, que depois foi desativado dando lugar ao projeto Pró Morar, casas feitas em pré-moldados com placas de concreto, onde passávamos os fins de semana, e assim até hoje o local é denominado Bairro Fim de Semana e onde foi construído mais tarde o colégio Procópio Ferreira. Do outro lado do campo havia uma chácara de legumes e verduras que depois foi desapropriada dando origem ao Cemitério São Luiz, e o verdureiro Toninho sumiu para sempre!
Havia ainda um canavial em que o caseiro nos deixava saborear os gomos de cana de açúcar e, no final, varríamos tudo, deixando o terreiro limpinho. De tempos em tempos ganhávamos uns abacaxis que eram plantados para o consumo da casa. Quando íamos tirar o fruto, dávamos de cara com uns teiús enormes a descansar na folhagem, depois de furtarem alguns ovos do galinheiro. Era a festa para caçá-los e ofertar para uma panelada. Hoje, iríamos todos presos, sem direito a fiança!
As disputas eram das mais acirradas e os times tinham moleques de todos os recantos, pois as casas se distanciavam umas das outras, éramos todos juntos, misturados e espalhados! Destes "experts" da pelota recordamos vários, como: Juquinha e Prado, ambos primos, Kiromi e Kasuo, irmãos, além do primo dos dois Teruo. A estes se juntavam Paulinho e Tião, ambos irmãos, Tico e Gordo, Nê Gordura, Morruga, Pelé, Edson, Bagalaio, Watanabe, Cacalo, Nino, Sérgio, esses últimos um trio de irmãos, Cinval, Luizinho, Mingão, Rose, Adilson, esses irmãos também e, por fim, o Carlão, este missivista, que não tinha toda essa imponência do nome. Há tantos outros que fizeram parte destes momentos memoráveis, mas a lista seria continuação desta crônica, um capítulo à parte.
Nosso campo também um dia sumiu, o nosso amigo Edson mudou-se com seus pais, tinham que entregar as terras para ser construída a caixa d'água da Sabesp, a Rua "B" uma trilha de terra batida e poeirenta, que nos levava ao campinho do Edson, tornou-se a Rua Antonio Ramos Rosa, e todas as ruas numeradas do bairro foram batizadas com nomes.
O progresso estava chegando e nós perdíamos assim o campo de futebol e um pouco de nossa inocência.
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