Baú de saudades

Hoje acordei com vontade de abrir meu baú de saudades. Bebi um suco de laranja, comi um pedaço de queijo branco com manga e fui ao meu quarto de bagulhos, que fica nos fundos de meu quintal. Lá estava ele, empoeirado, sob muitas tralhas. Sentei-me em um banquinho e abri a tampa. As lembranças começaram a pular e uma delas, audaciosa, saltou para meu colo. Ao abrir a primeira página, notei o ano: 1960.<br><br>Aos meus olhos, o tempo recuou. Lá estava eu, um garotão com 18 anos, trabalhando na Ibesa S/A., uma fábrica de geladeiras, instalada onde hoje localiza-se o Sesc Pompeia. Quantas recordações afloraram. Lembrei-me dos bondes elétricos, dos passeios na Praça Cornélia, onde se reunia a turma do Pixoxó, das procissões da semana Santa, da vizinhança sentada nas calçadas nos fins de tarde, dos piqueniques familiares nas praias de Santos, dos deliciosos bailinhos dos sábados à tarde, dos gloriosos bailes de formatura, dos inesquecíveis bailes de carnaval, dos clubes varzeanos e dos jogos de futebol aos domingos de manhã na várzea.<br><br>Da emoção de segurar na mão da primeira namorada nas sessões de matinês, da sensação do primeiro beijo roubado, do respeito, por parte dos jovens, pelos idosos nos assentos do transporte público, das idas e vindas das vendas (empórios) e quitandas dos bairros, das reuniões noturnas com os amigos nas esquinas das ruas, no atendimento dos médicos das famílias, das parteiras que tantas crianças trouxeram ao mundo, do farmacêutico que entendia de tudo, dos circos, das quermesses e dos parques de diversões no mês de junho, das ruas de terra batida, onde jogávamos nossas peladas, garotos que fomos, do sentimento de solidariedade entre vizinhos.<br><br>Essas e outras recordações continuaram desfilando em minha mente, até que me dei conta de que outros velhos, como eu, também guardam em seus baús, muitas lembranças. Contudo, ao fechar a tampa, deparei-me com nossa triste realidade, de estarmos vivenciando o crescimento desordenado de nossa querida cidade, do falso progresso, da violência exacerbada, que nos prende em casa, do lixo que se amontoa em cada esquina. Um dia, quem sabe, esta metrópole voltará a ser nossa querida e saudosa Cidade da Garoa. <br><br><br>E-mail: [email protected]