Sabe-se de um aldeamento de índios, um posto-vigia formado pelos jesuítas com a finalidade de impedir ou combater possíveis invasores das terras dos Pinheiros, quando vinham pelo rio Pinheiros ou por entre o Caminho dos Aliados, isso logo depois de 1560. Também que alguns séculos depois os bandeirantes instalaram um posto de descanso nesse mesmo local.
De outra forma mais fundamentada, teríamos que consultar um historiador, um geólogo, um arqueologista, um geógrafo e comparar tudo isso com as citações dos livros, documentos e assentamentos patrimoniais.
Quantas memórias. Quantas histórias. Quantas verdades e inverdades seriam conhecidas e revistas e mesmo desmentidas.
Neste mês de outubro de 2006 o nosso Itaim Bibi foi homenageado. Completou 72 anos. Eu como morador de quase 60 anos no bairro, desde 1948/49, pouco vi comemorar-se o aniversário do Itaim Bibi.
Mesmo assim, parabéns a todos nós envolvidos com as coisas dessa recuperada grande várzea. Vamos resgatar e preservar nossas memórias e histórias.
Sabe-se de que em 1896 o general Couto de Magalhães adquiriu do Dr. Bento Ribeiro dos Santos Camargo, extensas áreas inundáveis pelo rio das Pedras formando o Sítio do Itaí. Consta que tais terras antes pertenceram a outros proprietários, desde a Da. Joaquina Duarte Ferraz.
Ele, o general, aumentou a propriedade com outra aquisição de Theodoro Feliciano da Luz, área denominada de chacrinha. Talvez daí é que passou a se chamar de Chácara do Itaí, depois de Itaim, mesmo com todos os seus mais de 140 alqueires. Os Couto de Magalhães viam-na como sendo uma grande área de lazer e pescarias, um belo e enorme sítio.
Seus limites eram: pela frente uma estrada que ia até Santo Amaro; por um outro lado o rio Verde, agora um córrego canalizado por onde se tem parte da Av. Cidade Jardim; cobrindo as terras de José Pacca e esparramando-se pouco além do córrego Uberabinha, atual Av. Hélio Pellegrino; indo até a margem direita do rio Pinheiros. Outros dizem que se estendia mesmo até o córrego da Traição, atual Av. Bandeirantes.
As benfeitorias eram: uma casa principal com quinze cômodos de taipa, um paiol de madeira coberto de telhas nacionais, um quarto para arreios, uma cobertura para trole, duas cocheiras com sete baias e outra com três, um quarto para depósito, um viveiro coberto de zinco, duas casas com porta e janela, um grande pomar com cerca de quinhentas árvores frutífera nacionais e estrangeiras e um moínho movido a água. Era a Casa Grande, a nossa tombada, derrubada, destruída Casa Bandeirista.
Com a morte do general em 1989, quem herdou a enorme área foi o "Mameluco", José Couto de Magalhães, filho do general. Porém com o seu precoce falecimento e quase perda do patrimônio familiar, o médico Leopoldo C. de Magalhães, irmão do general, assume as terras em 1907 comprando-as em leilão pela bagatela de 30 contos de réis, iniciando a efetiva ocupação da chácara.
Logo em seguida, retalha entre outros herdeiros e começa a venda de parte da mesma aos estranhos ao clã Couto de Magalhães. Esses compradores eram na maioria vindos do bairro do Bixiga/SP. Desde então contínuas partições, vendas, loteamentos e revendas foram ocorrendo.
As primeiras ruas, ruelas entre as chácaras formadas, surgem desde 1910 à 1920, sendo os lotes ocupados por emigrantes italianos e alguns portugueses. Neste período o sítio ou a chácara do Itaim, anexado ainda ao sub-distrito dos Pinheiros, sofre uma divisão judicial por entre os herdeiros do general e os estranhos.
O Itaim como sendo habitável, se limitava ao quadrilátero formado pela agora Av. Nove de Julho, ex-rua Chile, a Av. Pres. Juscelino Kubitschek em cima do canalizado córrego do Sapateiro, a Av. São Gabriel, ex-Anajás, até o rio Pinheiros que com seus inúmeros meandros um deles passava bem próximo a rua do agora Posto de Saúde do Itaim Bibi, e uma outra curva lá bem no terreno do Clube Pinheiros, ex-Clube Germânia.
A porção da margem esquerda do córrego do Sapateiro, a hoje valorizadíssima Vila Olímpia também fazia parte do espólio inicial, embora bastante renegada por ter terras bem mais inundáveis.
No início do século XX, em 1914, essas terras mais baixas foram vendidas à emigrantes portugueses da Ilha da Madeira, como o Sr. Policarpo Corrêa. Iam até o antigo córrego da Traição, atual Av. Bandeirantes.
As terras da agora Via Funchal, na época entre os meandros do rio Pinheiros, foram inicialmente compradas por emigrantes vindos de Funchal, na Ilha da Madeira. Essas terras foram recuperadas com a retificação do rio a partir da década de 30.
Na verdade, foi o Sr. Arnaldo Couto de Magalhães, apelidado de Bororó, filho do Bibi, quem deu um sentido mais urbanístico ao Itaim. Isso a partir de 1925, dividindo as terras da porção direita do córrego do Sapateiro, na forma de pequenos terrenos, separando-as em lotes de até 10 X 50 m². As vendas eram a prazo, efetuadas por um escritório da rua Líbero Badaró ou em um ponto na rua Joaquim Floriano. As prestações e os pagamentos eram marcados em simples cadernetas como aquelas que se usava para marcar as compras diárias nos armazéns, quitandas e padaria, só pagas no final do mês.
Leitores, toda essa descrição arremessa à "Casa Bandeirista", na ocasião denominada de "Casa Grande ou a Casa Sede", aquela que ficava num enorme terreno no início da agora rua Iguatemi, final de rua Joaquim Floriano. Vão ter que reconstruí-la. Vamos lutar para que isso seja feito, seja respeitado. Vejam, os documentos e a lei de Tombamente já se tem. Vamos atrás do CONDEPHAAT, do CONPRESP da Prefeitura, do Governo Estadual, etc.
Que tal denominar-se como a Casa da Cultura José Vieira Couto de Magalhães ou a Casa das Jaboticabeiras, hein, hein?! Seria como se fez com a Casa das Rosas lá na Av. Paulista.
(*) – Baseado em:
Helcias Bernardo de Pádua, 2006. – Biblioteca Munic. Anne Frank, 60 anos. Folder – Descritivo & Programação. Sec. Munic. de Cultura/PMSP.
Helena de Queiróz Ferreira Lopes & Vera Lúcia Vilhena de Toledo, 1988. – Itaim-Bibi. Depto. do Patrimônio Histórico. SP/SP; Histórias dos bairros de São Paulo; vol.26, 101 pgs.
Luiz Carlos Couto de Magalhães, s/d. – Mais de um século de tradição. Memória, publicação s/n (xerox).
Nilmara Perissini, 2004. – Vila Olímpia. a morada dos Deuses. Publ. comemorativa. Padaria D′Árte, ed. Edmilson Conceição/Ind. Gráfica Itu/SP, 32 pgs.