Ainda pequeno, ajudado pelo meu pai, subi e desci a imensa escadaria da vila lá na Liberdade do Bixiga estendido. Exatamente: 23°33′40.46"S 46°38′28.60"W, à rua Martiniano de Carvalho, 277, no bairro da Bela Vista.
A Vila Itororó é considerada um pedacinho de Portugal dentro da cidade de São Paulo, registrando um tempo na primeira metade do século 20, diferindo-se das construções do centro da cidade de então.
Por anos depreciada, mas que hoje, dia 27/10/06, 20 h, estará me recebendo, retornando ao pátio interno, seu tombadilho, para assistir gloriosamente a apresentação de um vídeo projetado justamente no espaço que em outubro de 2005 a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) afirmava ser uma comunidade formada por um casarão de 42 casas pequenas e aproximadamente 70 famílias. Deve transformar-se em mais um polo cultural para São Paulo, obedecendo o decreto municipal assinado em 23/01/06 pelo então prefeito José Serra.
Atualmente a Vila Itororó abriga cerca de 250 pessoas em uma área de 4.500 metros quadrados. São 37 casas menores ao redor de um grande palacete. A prefeitura de São Paulo pretende, por meio de um projeto de revitalização, instalar o Pólo Cultural e Gastronômico de São Paulo.
Mas calma amigos e vizinhos do Itaim Bibi. Eu me considero Itahyense. Esse mesmo do Grupo de Memórias, da várzea do córrego do Sapateiro, afluente do rio Pinheiros, em Piratininga.
Nasci em outro bairro, o da Liberdade de bela vista da nascente do Itororó, o da primeira piscina pública e provavelmente do primeiro condomínio particular com área de lazer neste município. Idéia de um visionário, de excêntrico lusitano.
* Itororó significa água barulhenta. Tororó em tupi quer dizer jorro ou enxurrada; corruptela de Xororó. Y-xororó, igual a água corrente, manancial na língua brasílica.
Atenção: – eu não nasci no dique, aquele da conhecida canção baiana referente ao Itororó lá de Salvador. Não mesmo!
Fui a Itororó. Beber água e não achei. Adeus bela morena que no Itororó deixei…
Também: – não nasci naquela biquinha do litoral santista citado pelo falecido escritor Olavo Rodrigues, em seu livro Cartilha da História de Santos (1980, Santos).
A fonte no sopé do Monte Serrate "servida por água límpida e cristalina, que brotava da rocha a meio caminho do lendário morro" e "muita gente para lá acorria a fim de saborear o bom líquido, com ou sem sede, pois dizia-se que quem dela sorvesse, não mais deixaria a cidade.
Essa nascente que o escritor se refere é da primeira biquinha, a original Biquinha do Itororó muito antes mencionada em Indicador Turístico do Brasil de 1885. Ela está situada atrás da atual, a segunda, em local ocupado pela garagem do prédio municipal, sob o telheiro da garagem com a placa indicativa "Águas do Itororó".
Ainda no caso, fala-se do riozinho que nas suas margens, desde 1532, estabeleceram-se roças e as moradas de dois dos principais povoadores de Enguaguaçu e fundadores da cidade de Santos, Pascoal Fernandes e Domingos Pires, segundo Francisco Martins dos Santos, em sua História de Santos (volume 2, segunda edição, 1986).
Era o tempo que a região não dispunha da distribuição desse precioso líquido. Ora à água. Então do riacho, da nascente, diretamente da bica, recolhia-se tanto para uso humano, doméstico, animal, etc. Bebia-se a água. Lançava-se já servida. Tudo no mesmo espaço.
Algum tempo depois, a pura, límpida e cristalina água que nascia naturalmente do morro foi considerada nociva, condenada para uso público. Então se constrói no sopé do Monte Serrate, outra fonte, a segunda biquinha, até hoje muito procurada, como se a água viesse de qualquer nascente pura do morro. Até nisso somos iludidos.
Mas voltando-se ao princípio, ou melhor quando se fez carne, ou seja, quando e aonde nasci.
Fui concebido em um dos cômodos laterais da Vila Itororó, na rua Martiniano de Carvalho, Liberdade/SP, (Bixiga estendido). Como a minha mãe dizia: no casario formado por cômodos que mais pareciam laterais internas do navio, vista de cima. Tudo isso sendo abençoado por uma exótica estátua de ferro da Deusa da Prosperidade e protegido os dois leões que "guardam" a sua entrada.
No site www.bixiga.com.br, vê-se: – uma das construções mais extravagantes da cidade, a Vila Itororó, na rua Martiniano de Carvalho é um símbolo do Bixiga imigrante. Construída pelo tecelão português Francisco de Castro em 1922, ficou conhecida, já na época, como Casa Surrealista. Seu proprietário, além de trabalhar com tecidos, tinha conhecimentos nas áreas de engenharia e arquitetura, e utilizou-os de forma inédita na construção do exótico casarão de quatro andares e trinta e sete casas ao redor, ocupando área de 4,5 mil metros quadrados, que constituíram a primeira vila de São Paulo.
Alguns de seus ornamentos construtivos vieram do Teatro São José. Foi a primeira residência particular da cidade a ter uma piscina particular, aproveitando a nascente do riacho do Vale do Itororó, que dá nome ao local.
Mais tarde, a Vila Itororó foi leiloada para cobrir dívidas do tecelão, e foi arrematada pela Santa Casa de Indaiatuba, que a alugou para outras pessoas.
Apesar de tombado pelo conselho municipal de patrimônio histórico, a Vila Itororó é hoje mais um dos cortiços deteriorados do Bixiga.
Águas passadas? Não, não!
São pesquisas. A sede do saber, sem nunca saciar-se.
Vejamos.
Aí esta o porque de me tornar biólogo sempre estudioso em qualidade das águas.
Fui concebido em uma das margens acima da nascente Itororó, no vale, no tombadilho da vila, na Liberdade, no Bixiga, em São Paulo. E ainda não sei nadar.
Marinheiro, marinheiro, quem lhe ensinou a nadar? Foi o tombo do navio ou o balanço do mar?
Pois é…, tenho muito que aprender.
Continuo a navegar. É preciso…
Em tempo: o parto do meu nascimento foi no Hospital Cruz Azul, da Lins de Vasconcelos, no Cambuci, bairro de São Paulo. Era 28 de fevereiro de 1946.