Corria o ano de 1968, talvez. Então, passeando a pé pela Rua Lins de Vasconcelos vi, em um velho cinema que ali existia, o cartaz desse filme, que trazia no elenco Marianne Faithfull e Alain Delon.
Que fazia eu por ali, tão longe de casa, e sem carro, que ainda não tinha?
Não faço ideia, a São Paulo de então era mais aprazível e fácil de ser percorrida, com muito menos congestionamentos de trânsito e muita tranquilidade. Era, portanto, mais desfrutável por um pedestre, que podia ainda contar com os bons ônibus vazios – bondes já não mais existiam, creio.
O cartaz era chamativo, a loira Faithfull em seu traje de couro negro, mas não cheguei a assistir esse filme. Eu mesmo tinha uma vida mais tranquila, o bom emprego na Avenida Senador Queiroz não me exigia em muito, e talvez isso explique em parte o mistério do quê fazia eu nessa hora de um dia em tão inusitada via pública.
O fato é que, até hoje, não vi o tal filme. Mas, já que falamos em mistério, e garota de motocicleta, eu tomaria parte num breve, mas extraordinário episódio relacionado ao tema, como se fizesse uma ponta nessa película. Algumas vezes já me perguntei se seria mesmo verdade, ou o cartaz da Lins de Vasconcelos ficara em meu subconsciente, causando tal ilusão. Mas, compartilhada com outra pessoa? Não, meus amigos, foi absolutamente real.
Foi assim: passaram-se alguns anos e as circunstâncias eram bem outras. Paris, 1973. Estávamos eu e minha companheira da época cruzando uma daquelas pontes que saem da Notre Dame, a Saint Louis, talvez, quando ela apareceu. Com um rugido, a moto negra estacionou a nosso lado. Nela, uma beleza loira, toda em couro negro. A garota da motocicleta!
Ia colocar o capacete, mas antes, olhou para mim e encarou-me, com toda a intensidade de seus olhos verdes. Ou seriam azuis? Fiquei pasmo, e minha ex indignada. Afinal, não sou o Alain Delon. Durou uns fulminantes segundos; depois sacudiu a cabeleira, colocou o capacete e acelerou, Rive Droite afora.
Para sempre, para toda a eternidade. Teria se desvanecido no ar ou, cruzando o espaço e o tempo, voltaria ao antigo cartaz que ficava às portas daquele cinema da subida da Lins de Vasconcelos, há tanto tempo extinto?
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