Flor da Vila

Quando chegamos a São Paulo, em abril de 1964, vindos do sul de Minas Gerais, eu penso que o mundo virou de cabeça pra baixo.

Lá na minha cidade, em nosso sítio, quando pela primeira vez ouvi a conversa que viríamos para São Paulo, eu não acreditei. Para nós, crianças, e para os adultos também, São Paulo era o fim do mundo. Cidade grande para nós era, no máximo, Poços de Caldas ou a capital do sul de Minas, como todos sabiam e alguns ainda sabem, era Campinas.

São Paulo era impensável. Quando chegava alguém dizendo que viera de São Paulo, a molecada olhava meio de lado, assim como quem diz "mais um para fazer companhia para o Cabeça de Vaca e para o Cabeça de Panela", os doidos oficiais mais conhecidos daquela região. Mas com o tempo descobrimos que nem era tanto assim. Tudo passou ligeiro e viemos mesmo.

Domingo, meados do dia, entramos na casa nova. A rua de pedra macaco, molhada. O céu cinza.

Lembro-me do entardecer deste domingo triste. Saímos à rua eu e meu pai. Os bares próximos, que com o correr do tempo seriam identificados (Bar do Bolinha, Bar Alvinegro), estavam fechados. Ao longe, lá no final da rua, havia uma luz. Andamos até lá e encontramos o Bar Flor da Vila. Meu pai pediu um vinho – que nós éramos da terra do vinho – provou e careteou (devia ser ruim pra danar). Eu escolhi um docinho qualquer. Descemos a rua com a mais profunda sensação de que fôramos enganados. A tristeza que vi aquele dia nos olhos de meu pai nunca mais saiu de mim…

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