Eram os idos da década de 70 do passado século, 71 ou 72, provavelmente. Sempre que voltávamos da casa de minha tia-avó, à Rua Abílio Soares, onde hoje é o colégio Santo Inácio, passávamos em frente a uma casinha, bem à esquina entre as ruas Coronel Oscar Porto e Dr. Rafael de Barros. Minha mãe fazia questão de cumprimentar um senhor calvo, idoso – aparentava então seus 60 anos – espanhol, canário (para precisar sua "Comunidad Autónoma" de origem).
Certo dia, vesperais do feriado de fundação de São Paulo, planejando uma viagem a Águas de Lindoia durante o referido período, retornávamos da casa de titia e, tal qual soíamos fazer, passamos pela casa do "canário calvo" – como eu o chamava intimamente, por troça inocente, sem qualquer laivo de motejo sarcástico – e soubemos de sua filha que falecera no começo do mês. Empenhadas as condolências, ouvi-a dizer algo que não me apresentou qualquer sentido, não por estar em espanhol, pois compreendo, mas pelo seu conteúdo inusitado: “Ahora no más tendremos silbados en 25 de enero" (não ouviremos mais assobios aos 25 de Janeiro).
Semanas depois, voltava sozinho da casa de minha tia-avó quando vi a moça que nos notificara a passagem do pai, e perguntei-lhe o que quisera dizer, dada a minha falta de compreensão. Foi necessário avivar-lhe a memória, ao que me explicou que na época em que o pai decidira vir ao Brasil, "hacerse un indiano rico" (enriquecer em solo americano, como se dizia em Espanha por tais azos), 1921, o governo espanhol proibira a emigração descontrolada ao Brasil e Cuba, devido a casos de semi-escravidão.
Os habitantes das Ilhas Canárias, adaptados a séculos de insularidade, desenvolveram uma curiosa e singular linguagem de assobios (silbos). Alertavam, subindo aos promontórios, os amigos das ilhas vizinhas, por meio de assobios combinados em número e duração, da presença de guardas marítimos, tempestades, falecimentos, esponsais, etc. Ele e uma centena de amigos planejavam entrar, às escondidas das autoridades emigratórias espanholas, em um navio cargueiro que viria primeiramente para Venezuela e depois Brasil e Argentina.
"Compañeros" os alertaram pelos "silbados" da presença de uma lancha da guarda de portos, Aguardaram o átimo oportuno, e conseguiram abordar o transporte marinho para América. De Santos, veio direto para "la San Pablo de variopinta cultural y humana" (São Paulo de miríade de culturas e povos), de onde não mais saíra. Avisava a filha quando a esposa/mãe estava de mau humor; o filho, quando o pai da namorada, que morava do outro lado da rua, estava chegando; pelos assobios. Ao aniversário de São Paulo sempre dava um assobio de manhã.
Fiquei satisfeito quando li a revista Carta de España que nos anos 90 a linguagem dos assobios foi declarada patrimônio cultural imaterial regional canário e deveria ser disciplina obrigatória às escolas de Tenerife. "El señor canario pelado debe estar silobando entre los ángeles. Le echo de menos." (o senhor canário calvo deve estar assobiando entre os anjos. Sinto sua falta).
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