Chovia naquela manhã de setembro, eram 7h, acordei obedecendo às ordens do velho despertador, tinha que entrar às 8h no emprego, a marcação do ponto era inevitável, não podia chegar atrasado senão teria advertência no prontuário. Tomaria, então, um café bem reforçado preparado por vovó Gilda, mãe do meu padrasto José, pessoa fantástica. Ela era de origem italiana, tinha uma mão de fada, cozinhava com maestria, nada devia a minha santa mãe Izabel.
Era eu jovem, 21 anos completados no ano e meu emprego era no centro de São Paulo. Correndo para não se molhar por inteiro pegaria o coletivo na rua de cima, a Rua dos Portugueses que, aliás, sempre vinha lotado; além do motorista, cumprimentava todos os passageiros, pois devido à convivência diária todos se tornavam conhecidos.
Como dizia, o meu emprego como escriturário era na Rua Conselheiro Crispiniano, em uma Cia. de Seguros, lá admitido no ano de 1961 como datilógrafo, costume da época; a tesoura nos classificados do Estadão tinha funcionado para minha satisfação, informática era palavra proibida.
Estamos no ano de 1964, última semana de setembro, um bom dia diria ao simpático e risonho ascensorista que, aliás, era morador do meu bairro, Santana, de tantas lembranças otimistas para mais um dia de trabalho (nem poderia imaginar ser o meu último dia de trabalho nessa empresa).
O elevador me deixaria no terceiro andar, dizendo bom dia aos colegas, fui logo me acomodando em minha mesa de trabalho, antes, porém, ajeitando o meu surrado paletó e gravata, item obrigatório de vestimenta do momento, quando meu chefe Sr. Plinio me chamou em sua mesa ordenando que fosse até o DP no segundo andar; pensei que ganharia uma promoção para a alegria de minha santa mãe; toda a região de Santana saberia e, para a minha surpresa, veio a notícia inesperada: estava demitido. Na hora, o mundo desabara sobre a minha cabeça, não tinha dado motivo, era cumpridor dos meus deveres. De nada adiantaria as minhas ponderações, precisava do emprego, tinha dívidas, iria ficar noivo com uma moça do bairro ante a ameaça do senhor seu pai, nada adiantaria, o fato foi consumado para a tristeza de minha mãe e demais familiares que ficaram chorosos com o acontecido. Anos de dedicação e a empresa não foi considerada, reconhecida. O que me causaria também dissabores seria a perda do contado diário com os colegas de trabalho, o ambiente salutar que foi formado, as gozações quando o meu Palmeiras perdia, as comemorações dos aniversários, as investidas nas funcionárias solteiras do Mappin na hora do almoço, o momento das refeições na Liga das Senhoras Católicas situada nos baixos do Viaduto do Chá, os shows radiofônicos da Radio Cultura em hora de almoço, esquina Duque de Caxias, São João, a empresa era a extensão das nossas casas.
A despedida então foi dolorosa, nem as palavras do velho amigo, saudoso Osvaldo, que dizia que o diabo fecha uma porta e Deus abre outra, me consolaria. Voltaria para casa cabisbaixo, sem querer falar com ninguém, ônibus vazio, perdido, pensando no que iria fazer pela frente. Tempos depois, por ironia do destino, fui trabalhar no sexto andar, como bancário, em um prédio quase em frente ao qual trabalhei por quatro anos, onde passei estes memoráveis dias. Fiquei neste banco por um bom tempo, quando apesar dos apelos da direção para que permanecesse, pois teria um bom futuro, e atendendo aos desejos de minha mãe fui fazer carreira militar onde fiquei por muitos anos. Um dia eu perdi um emprego…
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