Em 1973, cursando o terceiro Colegial, consegui meu primeiro emprego na Usina Térmica Piratininga, (UTP), Usina inaugurada em 1954, no bairro de Pedreira em Santo Amaro, construída nas barrancas da represa Billings e Rio Grande. Entrei como auxiliar de operador de turbina, caldeira, sem nenhuma experiência no setor, porém, a empresa, com o passar dos meses, oferecia um curso técnico no assunto e a cada período uma prova e, sendo aprovado, havia a chance de promoção. E ali fiquei até 1977.<br><br>Mas, independente de tudo, era uma grande empresa que dava todas as condições de trabalho para a época, como restaurante, ônibus, uniforme, cursos e, nos finais de ano, cesta de natal em uma bolsa que podia ser usada; possuía um clube com um completo conjunto de quadras poliesportivas e campo de futebol, churrasqueiras.<br><br>Tinha assistência médica própria, que ficava na Rua Formosa, onde hoje é o Shopping Light e onde era também o escritório central, também tinha um escritório no início da Rua Formosa, quase na Praça das Bandeiras, setor de seleção de pessoal, RH.<br><br>Trabalhava em rodízio de horário, que era das 7h às 15h, depois, das 15h até as 23h e a última das 23h às 7h, com dois dias de descanso entre as trocas de horários. Esse último era o mais difícil, principalmente para quem não estava acostumado a trabalhar à noite, prejudicava muito os estudos, mas, fui levando.<br><br>O trabalho era o controle e produção de energia elétrica através da queima de combustível, chamado óleo baiano ou de baixa pressão, um óleo que vinha por dutos da refinaria de Cubatão e Paulínia até o Bairro da Pedreira, em Santo Amaro. A usina ficava (e está lá até hoje) nas margens do Rio Grande, próximo à Usina Elevatória de Pedreira para a Represa Billings (é bom lembrar que o Rio Pinheiros é formado pelo Rio Grande de Jurubatuba e pelo Rio Guarapiranga, ambos se encontram onde está localizado a Empresa química Bayer do Brasil, a Ponte Estaiada Engº Jamil Sabino e a Estação Santo Amaro da CPTM e do Metrô).<br><br>No trabalho, também fazíamos um rodízio por departamento, que era o setor de caldeiras, onde a função era acender e apagá-la, depois, íamos para o setor das turbinas, onde controlávamos a geração de energia para cidade, e um terceiro, no andar inferior dos sete existentes, onde era o controle das bombas de água para resfriamento das máquinas e do vapor saturado, que também tinha a função de fazer leitura dos tanques de água e de óleo.<br><br>Quando entrei na usina, foi uma época de racionamento de energia, falta de petróleo, falta de óleo e o custo era altíssimo e a usina vivia mais em espera do que trabalhando entrava em operação as 06h00 da manha e desligada as 23h, isso não era todo dia ou ainda em alguma emergência.<br><br>A usina era composta de quatro unidades geradoras de energia. Eu trabalhava na unidade 1 e nessa geração, no meu período de trabalho, havia um rodízio entre elas e, certo ano, todas ficaram paradas e, no período da noite, a maioria dos operadores ia dormir, em lugares dos mais estranhos possíveis: uns dentro dos painéis de comando, outros em cima da turbina, outros no banheiro e até no fôrro do banheiro.<br><br>Todos os funcionários usavam um uniforme cinza e capacete, que diferenciava as cores pelo cargo. O nosso era branco e, no início, ele incomodava muito, marcava o cabelo e apertava a cabeça, mas com tempo acostumamos a usá-lo, acostumamos tanto que às vezes íamos embora com o capacete na cabeça, que virava motivo de chacota dos colegas e, mesmo tirando, sentíamos que estávamos com algo na cabeça.<br><br>Devido a essa empresa e esse trabalho decidi prestar vestibular para engenharia e com a monotonia de trabalho e falta de serviço dava até para estudar lá dentro. A Usina, nessa época parada, já se falava em estatização e em economia de combustível e, por isso, não havia mais promoção e a ociosidade campeava na empresa. Nós chegávamos, trocávamos de roupa, fazíamos a inspeção de alguma coisa e íamos dormir ou jogar baralho, dominó.<br><br>A empresa sempre contratava jovens, geralmente sem experiência, mas com curso colegial ou equivalente, para trabalhar na função de operador da usina em diversos segmentos, como: caldeira, turbina e bombas e controle em geral, no decorrer do trabalho, como auxiliar, o empregado era treinado por professores experientes no ramo, pois essa atividade não se aprendia na escola, muito técnico de alta periculosidade e insalubridade. Tivemos dois professores, monitores que foram o Sr. Pedro Paulo Brincas, que se formou engenheiro e foi para sua terra natal, Tubarão – Santa Catarina, trabalhar na então recém inaugurada Usina de Tubarão. Outro professor, Sr. José Francisco de Paula Santos, natural de Roseira, próximo à Aparecida, interior de São Paulo, e devido a sua terra natal tinha o apelido de Chico Roseira.<br><br>Depois de 35 anos aproximadamente, despertou em mim a necessidade de recordar fatos interessantes: trabalho extra dos colegas da usina, um deles eram os apelidos, onde a maioria se conhecia pelo cognome e até hoje a maioria, já aposentada, só conhece o amigo pelo apelido e, como em todo lugar, sempre tem aquele que é o rei dos apelidos e, nesse caso, a pessoa era nosso colega, Arnaldo dos Santos, ele também tinha um apelido que homenageia a cidade onde nasceu, Itu, Arnaldo dos Santos, o terror dos colegas, era observador ao extremo, a cada elemento que entrava na usina, no primeiro olhar, lá vinha o apelido: ou pela aparência, ou pela atitude que esse elemento tomava ou ainda pelo que ele falava e até pelo nome da pessoa.<br><br>Mas, antes de falar dos outros, o Itu, creio que ele mesmo colocou esse apelido, tinha e tem um cacoete de levantar o braço involuntariamente e esticar o dedo mindinho, nada que o atrapalhasse na vida e no trabalho, o problema era ficar no ponto de ônibus e o braço levantar automaticamente e o ônibus ou até o taxi parar, era difícil explicar o acontecido e o Itu tinha um dom de falar bem e muito e, isso, creio, depois de aposentado na usina com seus quase 60 anos foi estudar advocacia e tornou-se bacharel em direito.<br><br>Comigo foi assim, comecei a trabalhar em uma noite, logo às 23h, mas meu cartão já estava na “chapeira” uns dois dias antes, assim me disseram, e o meu apelido já estava dado sem nem me conhecerem. Quando cheguei, primeiro dia de trabalho, quer dizer primeira noite, após dois dias já com certa intimidade, pois o pessoal era bastante comunicativo, me chamaram de Rasputin, referência a Grigori Rasputin, místico russo, devido ao meu sobrenome. Não teve jeito, ficou assim até eu sair da empresa.<br><br>E assim, ali, todos tinham apelidos. Ele colocava apelido e tudo era motivo de riso, pois pegava mesmo, era a sua especialidade e noventa por cento dos apelidos era ele quem colocava e segue abaixo o rosário desses apelidos. <br><br>Continua…<br><br><br>E-mail: [email protected]