Em idos de 1969 eu era guardinha – Fundação Casa do Pequeno Trabalhador – que tinha sede nos baixos do Viaduto 9 de Julho. Devidamente uniformizado, uma das atividades da instituição era tomar conta de carros nas ruas de São Paulo e eu gostava de trabalhar exatamente na Rua Engenheiro Boulevard esta rua é aquela ao lado do túnel da Avenida 9 de julho – direção bairro.
Os carros que paravam ali eram dos estudantes da FGV. A maioria era tudo gente fina , tinha uns que até deixava a chave do carro para eu poder ouvir rádio. Minha função, além de "cuidar" do carro era apontar aonde havia uma vaga, assim que um carro dava sinal que queria estacionar. Eu ajudava:
-"vem, vem.. pode vim!".
Abria a porta, fechava os vidros e já ia dizendo o texto que a gente aprendia na instituição
– “Bom dia! Sou aluno da Casa do Pequeno Trabalhador e se o senhor puder dar uma contribuição, agradecemos muito"
Para cada valor dado a gente destacava do nosso bloquinho uma espécie de tíquete que descrevia rapidamente a atividade da instituição e entregava ao cliente. Havia um aluno, o carro dele era o mais luxuoso, ele chegava sempre no mesmo horário e eu tinha comigo que, para ele, eu não existia!
Ele não me impedia de abrir a porta do carro e falar o meu texto; eu não deixava de indicar a vaga para ele e ajudá-lo a estacionar, mas tudo era feito no mais absoluto silêncio (da parte dele) – eu tinha dez anos de idade, mas era um garoto paciente e coloquei na minha cabeça que um dia eu ia ouvir a voz daquele cara (nem obrigado ele falava) e ele um dia me daria uma contribuição.
Lembro-me que em um final de ano…aquela rotina…ele chegou, eu ajudei, falei o texto… E ele disse:
-"tó!"
…foi uma das maiores contribuições que eu consegui em toda a minha história dentro da Fundação. Não me lembro quanto… Mas se ele por acaso estiver lendo este depoimento:
-"muito obrigado".
E-mail:[email protected]