As datas comemorativas parecem que possuem um atrativo cativante que faz com que todo mundo saia, ao mesmo tempo, para os magazines, shoppings, exposições relativas às datas festivas. Um verdadeiro frenesi incontrolável de presentear quem se tem afinidade familiar ou mesmo quem, por algum motivo, está sempre presente em nossas vidas, que são os "amigos-parentes", tão importantes no relacionamento que fazem parte de um rol importante em nossas vidas. Mas houve um tempo "diferente" de um pertencimento mais próximo nos bairros de operários na Região de Santo Amaro.
A Páscoa sempre foi uma data muito importante para muitas famílias, até, desculpem se erro neste posicionamento, mais importante que a natividade. As raízes cristãs mostravam que a Páscoa está dentro da concepção da passagem da morte de "Dominus", do Cristo, ressurgindo das profundezas da morte para a ressurreição.
Primeiramente, tínhamos que ir à missa, ao "triunfo da entrada" a balançar palmas, capins santo, alecrins, arrudas, e outros odores, em ovação ao Domingo de Ramos. Depois participar da procissão da Sexta-feira da Paixão, sempre ficava a dúvida de criança: por que era ele tão apaixonado a ponto de se entregar ao calvário?
Seguia o rito pelas ruas de barro de bairro do Jardim São Luiz, com velas acesas, clareando o caminho escuro e esburacado e a queimar-nos os dedos mesmo protegidos por um improvisado papelão a reter a cera. Sempre havia uma "penca de moleques" desgarrados em um murmurinho até alguém chamar a atenção por haver respeito pela ocasião, seguido de um safanão, os obrigando a parar com a travessura.
O padre ia à frente do andor levado por homens, e as mulheres repetiam orações marcadas em passos lentos acompanhado de uma comitiva num canto chorado: "A morrer crucificado, teu Jesus é condenado, pelos seus crimes, pecador"!
O cortejo da procissão seguia pelas ruas, as portas comerciais "cerravam-se", e, uma matraca a bater anunciava o cortejo, até atingir o morro onde estava a Paróquia São Luiz Gonzaga, o andor enfeitado por senhoras fervorosas, era deposto na capela, o ato final, sem festa, o tabernáculo ficava vazio.
Assim passa a Via Sacra e a Paixão da Sexta-feira, seguindo a Aleluia e a Vigília da Páscoa. No Sábado de Aleluia eram esperados os vários Judas pendurados em postes de madeira da Light, recheados de balas e guloseimas ofertadas por comerciantes ao Crioulo Macalé, que tinha prestígio no lugar, pois providenciava os preparativos para ao meio-dia do Sábado de Aleluia, quando ocorriam “pauladas” no traidor Judas. Às vezes sobrava na testa de alguém também e doces rolavam no chão, fazendo a felicidade da garotada. Depois os bonecos eram estraçalhados e soltavam-se um "mundaréu" de rojões. Tudo preparado para a grande festa, da Ressurreição do Senhor, a Páscoa, o ressurgir para a vida plena.
Em casa, ovo de chocolate para festejar a Páscoa era artigo de luxo. Lembro que certa vez ganhei um Diamante Negro, da Lacta, demorei em degustá-lo, pois os ovos de chocolate eram raros, substituído por algum doce de abóbora, bolo de fubá, um pão de ló, este sim recebia muitos ovos, mas de galinha! A paróquia, lá no morro, se enfeitava para receber os fiéis e até este missivista que não se achava tanto assim, confiando que sempre haverá esperança de um novo porvir em nossa passagem.
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