Figurinhas na contracapa: recortar e colar

Paulistanos contemporâneos de meus 64 anos (e meio, quase), isto é, aqueles de um pouco menos e aqueles outros que vieram a conhecer São Paulo antes de mim – tais paulistanos por certo hão de lembrar-se das belas "Estampas Eucalol", ilustrações coloridas sobre vários temas. Se bem me lembro, eram do tamanho de uma carta de baralho ou de um cartão-postal. Estampas que compunham uma série ou coleção. Estampas, das quais juntei poucas. E se sequer guardei alguma…<br><br>Então, eu moleque, 6 ou 7 anos talvez, não via a hora de minha mãe finalmente comprar um sabonete Eucalol (cheirinho agradável), anexo ao qual é que vinha a tal estampa como brinde. Só que minha mãe optava, não pela estampa, mas pelo sabonete o "menos caro". Ao invés da figura, quem me apresentava era um Gessy ou Lifebuoy – cujo "laife" eu aportuguesava…<br><br>Álbuns de figurinhas? Bem que tentei completar alguns, se é que preenchi um. Quem não lembra? Álbuns de times de futebol, meios de transporte, natureza – reino animal, reino vegetal; bandeiras de outros reinos, impérios e repúblicas.<br><br>Pré-adolescente, tentei colecionar umas lindas figurinhas de aviação, que lhe contavam a epopeia, desde balões e aeróstatos até o Boeing 707 e o DC-8, à época ambos o máximo em avanço aeronáutico. Elas vinham inseridas na contracapa de gibis os quais, todos, eu não tinha verba para comprar. E, assim, com certa cara-de-pau, recorri à editora, no Rio de Janeiro. Pois não foi que, com extrema cortesia, eles me enviaram a coleção todinha? Que alegria a minha ao chegar o correio! E que ingratidão também por não ter guardado nada, com o devido carinho! Aqueles aviões de "cromos"… Foi como se todos tivessem despencado daqueles céus de papel, por meu desleixo. Minha "gratidão", ela saltou de paraquedas…<br><br>E cartão-postal? Pedações coloridos de saudade… Cheguei a juntar, da São Paulo dos anos 50 e 60. Alguns deles, eu, moleque, comprava nas bancas. Enquanto que outros, lembro sem remorso, eu surrupiei (por amor à paisagem paulistana). Cartões-postais a eternizar aquela São Paulo que, no pós-guerra, começava a ganhar ares de metrópole. Postais, imagens "clássicas" que mostravam lugares-símbolo da cidade efervescente. Um fulgor que em muito ainda remetia ao IV Centenário. Imagens coloridas do Vale do Anhangabaú – repleto de ônibus urbanos cujos pontos iniciais se faziam ali; o "Buraco do Adhemar", rastejando sob o piso do comecinho da São João, sob os olhares do belo edifício dos Correios. Postais outros mostrando o mesmo Vale, ora contemplado sob, ora contemplado sobre o Viaduto do Chá… (O Viaduto ainda com as originárias pequenas escadarias de granito, ambos os lados da base, que davam acesso à Formosa e à Galeria – escadarias suprimidas por subsequentes reformas). <br><br>Outro postal clássico: a Praça do Correio e o Viaduto Santa Ifigênia, quem não o viu nas bancas do Centro? Transpondo o Santa Ifigênia, indefectível, um Twin da CMTC: linha 1-Circular, na certa! Mais postais consagrados: A Ramos de Azevedo e os ilustres moradores (Theatro Municipal, Mappin e o "Prédio da Light", que Light ainda era). O postal do Congonhas, este repleto de DC-3 que esperavam por passageiros, para então cortar os ares paulistanos… Estação da Luz, Ibirapuera (o símbolo em espiral, de concreto, do IV Centenário, à frente do Obelisco de 32, gigantesca baioneta de pedra porosa apontando para o infinito a saga dos Constitucionalistas); cartões-postais do Largo do Paissandu, ainda com dois “s” e a igreja inconfundivelmente singela… O Monumento, o Museu do Ipiranga e os, incrivelmente lindos, jardins de ares europeus. Enfim, mil e outros retratos da São Paulo "Terra da Garoa", cartões para deleite de turistas ou colecionadores. <br><br>Com o decorrer inevitável do tempo, meu apego juvenil por estampas, álbuns e postais restou, junto com esse acervo, guardado em uma gaveta ou caixa de papelão. Coleção a preservar, para mim, a São Paulo de que mais gostei.<br><br>Ainda que por nostalgia fosse: se eu hoje resgatasse algum dos postais, só para agradar a saudade… Se eu revisse aquele cartão-postal, o do Anhangabaú, repleto dos ônibus de minha infância que, para mim, embelezavam o Vale. Coaches da CMTC e tantos outros. Muitos em fotografia. Todos, quase todos, prontinhos para sair do postal e então enveredar pela Nove de Julho, lotados de passageiros imaginários…<br><br>Revisse-o hoje, o Vale daquele cartão-postal, restaria vazio dos velhos coletivos. Uma vez que, obsoletos e anacrônicos, meus belos ônibus de infância nem para cenário de postal mais serviriam… Implacável a tal de evolução tecnológica. Consequentemente, imagino que, na calada da noite do Vale – na madrugada de estrelas qual o luar de Vila Sônia – aqueles velhos ônibus da foto, uma vez contornando a São João e a Praça Ramos, o relógio do Mappin recolhendo os ponteiros para não testemunhar, um por um, aqueles ônibus lá de cima do Viaduto, eles se precipitariam em gesto extremo!<br><br>E, suponho, ao estatelarem no asfalto – melhor dizendo, hoje piso de mosaicos – de pronto, os velhos ônibus virariam fumaça! Mais por um passe de nostalgia do que de mágica. Por derradeiro, a fumaça daquele montão de ônibus se transformaria na cerração, que é fumacinha inodora, de brilho metálico e gosto poético, de alma tipicamente paulistana. Até que finalmente – também ela, a cerração – se tornasse obsoleta e fora de época, cerração paulistana que não chegou a ser cartão-postal… Quanto ao Vale? Bem, para mim, hoje, ele nem é tão cartão-postal assim…<br><br><br>E-mail: [email protected]