Meu Deus como o tempo passou, parece que foi ontem e já faz 47 anos. Jamais esquecerei aquele dia tão triste para mim, mas ao mesmo tempo tão esperado. Eu, desde criança, sonhava com aventuras. Lembro-me daqueles aviões da Vasp que pareciam feitos de folhas de zinco quando cruzavam os céus do bairro do Braz (se não me engano eram os velhos Junkers alemães de passageiros).<br><br>Eu começava a ouvir aquele ruído estrondoso, olhava para cima e mal conseguia enxergá-los passando em direção ao Rio de Janeiro. Eu sonhava em poder um dia voar em um deles. Mas como dizia, foram meses de ansiedade e aquele sonho de criança parecia que um dia ia se tornar realidade. <br><br>Aguardava com angústia aquela correspondência, porque estava a fim de ir em busca de novos rumos para minha vida e novas perspectivas. Tudo estava tão difícil para mim por aqui e, já com três filhos pequenos, tinha que procurar algo melhor para o bem de todos nós.<br><br>O ano era o de 1964 e aquele golpe militar nos trazia muita insegurança. Não sabíamos o que iria acontecer dali para frente, o futuro era incerto. Como tinha um amigo de infância, já residindo desde 1959 nos Estados Unidos, pedi ajuda a ele que se comprometeu em atender o meu apelo. <br><br>Como era taxista há alguns anos, procurava dar uma reviravolta em minha vida. Não seria fácil, mas também não seria impossível e estava bem otimista. Chegou o ano de 1965 e eu ainda aguardava a ajuda prometida do Osvaldo que não chegava. <br><br>Trabalhava como vendedor durante o dia e a noite como taxista, às vezes até a madrugada. E como diz o velho ditado "não há bem que sempre dure, nem mal que não se acabe". E no fim do mês de abril, finalmente, depois de tanta espera, chegou a carta de compromisso que eu tanto esperava. Tudo o que eu precisava para conseguir meu visto de imigrante. <br><br>Incontinenti, fui ao Consulado Americano que, na época, estava localizado no Conjunto Nacional, na Rua Augusta com a Paulista, e dei entrada no meu pedido, que demorou umas três semanas para ser concedido. <br><br>Vendemos nosso táxi, um Chevrolet 51, que dividi com minha mãe e comprei a passagem pela companhia Aérea Peru que era a mais aquecível naquele momento e que sairia do aeroporto do Galeão na manhã do dia 30 de junho. Como o vôo sairia muito cedo, teria que sair de São Paulo na noite do dia 29, pois nessa época do ano era comum Congonhas fechar pelas manhãs devido à cerração que se formava.<br><br>Isso me daria uma despesa extra, pois tinha que me hospedar em um hotel no Rio e depois pela manhã pegar um táxi até o Galeão. Eu procurava evitar ao máximo as despesas, pois tinha que deixar praticamente todas minhas economias com minha esposa, que ficaria com os garotos esperando que tudo desse certo até que eu pudesse remeter alguma ajuda financeira a eles.<br><br>A princípio, eu planejava ficar uns dois anos por lá, fazer um pé-de-meia e voltar. E aí, já com o inglês que com certeza iria aprender, junto com o espanhol que já dominava, seriam três idiomas e tudo com certeza iria ficar mais fácil e isso me ajudaria a conseguir o que eu buscava: um bom emprego. <br><br>Era dia 29 de Junho, dia de São Pedro. E o dia da dolorosa despedida chegou. À noite fui acompanhado pela família e amigos que faziam questão de me levar para o aeroporto de Congonhas, solidariamente e desejar sucesso na minha empreitada, pois naquela época não era comum um brasileiro trocar o Brasil por uma terra estranha, a não ser os que fugiam do sistema político que se instaurou no país ou os banidos do território como realmente aconteceu. <br><br>Nós éramos uma nação que abriu as portas para os imigrantes do mundo todo. Eu mesmo, um descendente desses imigrantes. Hoje, tudo mudou e não há lugar por esse mundo afora que a gente não encontre conterrâneos.<br><br>Não preciso dizer o quanto me emocionei ao me despedir da família e dos amigos. O meu filho caçula iria fazer um aninho dali a alguns dias. Embarquei em um Electra da Varig pela ponte aérea e aquele seria o meu primeiro vôo da vida. Quando já estava lá no alto e com os olhos cheios de lágrimas pude ver o quanto São Paulo era bela e ainda mais naquela noite toda repleta de fogueiras e balões por todos os cantos, flutuando pelo céu num espetáculo maravilhoso e deslumbrante. <br><br>A aeromoça, me vendo tão emocionado, tentou me ajudar e eu agradeci, porque em momentos como esses só o tempo consegue.<br><br>Era uma quarta-feira e desci no Santos Dumont, quase às 10 horas da noite. Peguei um táxi e me hospedei em um hotel no centro, que classificaria hoje de 2 estrelas. O táxi que me levou até ele e voltou às 5h para me levar ao Galeão.<br><br>Embarquei no tão sonhado vôo com destino à Lima, no Peru, às 9h da manhã, em um Convair 990 da Douglas, semelhante ao Boeing 707 e com escala em Bogotá na Colômbia e finalmente Miami, onde cheguei ao anoitecer. <br><br>Ali, tive que esperar umas 5 horas pela conexão que me levaria a “Newark New Jersey” que seria o fim da viajem e onde iria residir com o Osvaldo, meu amigo. <br><br>Eram, no horário local, 2h da madrugada e cheguei depois de uma estressante viajem de 17 horas. Tomei um táxi que era dirigido por um latino de origem portorriquenha (foi um bom início, pois Deus sempre esteve comigo. <br><br>Como eu dominava o castelhano não tive problema e bati um bom papo, dizendo a ele sobre os meus antecedentes como taxista. Cheguei no endereço, que era um conjunto de prédios de apartamentos térreos novos onde morava meu amigo, que por sinal não estava em casa, pois era garçom e ainda estava trabalhando. <br><br>O taxista me cobrou três dólares e ficavam me sobrando 23 dólares no bolso, essa era minha fortuna na chegada. Ainda bem que o Arruda e o Marcos estavam lá, sabiam que eu estava por chegar e que nos tornamos grandes amigos.<br><br>Esse foi o início dos 47 anos longe de São Paulo e do meu querido Brasil. E dizer que eu tinha planos de ficar somente uns dois anos. Todos esses anos foram, para mim e minha família, de muita luta e sacrifícios.<br><br>Pena que não posso contar crônicas desse tempo tão glorioso para mim. Gostaria imensamente. Mas, este e um maravilhoso site dedicado a nossa cidade de São Paulo e é por isso que todas as crônicas que tenho escrito até hoje, têm mais de 50 anos.<br><br>Mas só para vocês terem uma idéia: o ano passado fui surpreendido por uma reportagem enquanto assistia o Fantástico, na Globo Internacional, quando a Renata Ceribelli e o Zeca Camargo faziam uma pergunta, no vídeo, aos telespectadores e diziam: "Quem sabe dizer o que é a Aurora Boreal” e saíram pelas ruas de São Paulo e Rio perguntando ao povo. E, incrivelmente, para mim ninguém soube responder, somente um rapaz foi o que mais se aproximou dizendo que era uma coisa que vinha do Sol. <br><br>Em seguida, a Renata disse que não era de admirar que ninguém desse uma resposta correta a pergunta que ela fazia, pois era muito difícil alguém ter presenciado esse fenômeno, pois ela só aparece em lugares de temperaturas extremas de mais de 30 graus abaixo de zero e quando o Sol se esconde às 24 horas do dia no hemisfério norte, durante os três meses do inverno, onde ele desaparece por completo.<br><br>Ao contrário do verão em que o Sol brilha por 24 horas durante três meses. Isso acontece no Circulo Ártico e a Aurora Boreal ou Northen Ligths é um fenômeno provocado por ondas magnéticas que vem do Sol e que aparece do nada em inúmeras cores e assim como vem, elas desaparecem. <br><br>Eu fiquei muito emocionado nesse momento, pois tive a oportunidade de assistir esse deslumbramento com a graça de Deus. Eu deitava na neve e ficava admirando aquele esplendor até ele desaparecer. Isso aconteceu em três diferentes ocasiões quando trabalhei por quase 5 anos em um grandioso projeto no Estado do Alaska nos anos 70, em que suportava temperaturas de mais de 50 graus abaixo de zero Fahrenheit.<br><br>Para vocês terem uma idéia que frio é esse, eu jogava meu café que levava na garrafa térmica para o alto bem rente a meu rosto e não caia uma gota, pois ouvia um som estranho com um "UFF" e o café virava neve, como se eu estivesse jogando uma farinha para o alto. <br><br>Pena, como digo, que tenho que parar por aqui, mas foram 47 anos bem vividos e cheios de aventura. E Deus sempre esteve comigo em todos os momentos. Sinto muitas saudades desses tempos gloriosos para mim.<br><br><br>E-mail: [email protected]