Naquele inesquecível ano de 1966, o teatro Record abriu suas portas para um programa especial. Era o inverno bastante rigoroso daquele ano. Os cantores e compositores Roberto e Erasmo Carlos realizaram uma campanha "Me Aqueça Neste Inverno". Era um dos programas que fazia parte do Show do dia 7, que era realizado todo mês pela TV Record Canal 7, líder inconteste de audiência na década de ouro para o setor artístico. O preço do ingresso era apenas um cobertor. O teatro estava lotado saia gente pelo ladrão. Lá fora, na Rua da Consolação tinha dez vezes mais gente do que tinha dentro. Quem não tinha levado cobertor de casa, comprava dos camelôs na porta do teatro. Eram cobertores vagabundos que, de tão ralos que eram, seria preciso três, para esquentar um mendigo. No palco vários cantores da MPB e da Jovem Guarda se revezavam nas apresentações. Na rua outro Show, para os que ficavam de fora. Vários conjuntos de Rock. Um tremendo regional tocando samba, e uma cantora baixinha negra, que parecia a Elza Soares cantando. Cantava que dava gosto de ouvir, não ficava devendo nada aos grandes nomes dos profissionais da musica. Valeu a pena ficar de fora. Pois, além do que se assistia na rua, também o que se passava dentro do teatro a gente via, através de dois televisores colocados na calçada. Roberto Carlos cantava "Quero que vá tudo pra o Inferno". Mas com a presença do cardeal Don Paulo Evaristo, Blota Junior, dizia que Roberto tinha modificado a letra e colocado quero que vá para o inverno se aquecer com a solidariedade do povo paulistano. Aqueles anos de gloria da música mundial e brasileira, dos festivais, não sai da cabeça de ninguém que viveu e testemunhou o grande momento da música brasileira que ainda tinha a bossa nova, na cabeça. Vinicius fazia a "Benção do Samba". Chico Buarque enaltecia as mulheres, com belíssimas canções, Elis Regina apresentava o Fino da Bossa, e Elizete Cardoso mostrava a Bossaudade. Que momento rico de cultura tivemos. Pena que nunca mais surgiu aqueles grandes movimentos musicais. Ficou apenas a saudade e muita gente em nossa memória.