Acho que cometi uma falha muito grande no meu último texto ao declarar minha paixão pelo cinema. Será que é aquele doutor alemão me perseguindo? E o rádio? Como pude deixá-lo em segundo lugar? Companheiro fiel de todas as horas – em uma cidade em evolução na era pré-televisão – ele nos permitia estarmos em contato com tudo: hora certa; tempo; notícias da cidade, do país e do mundo; literatura, ciência, artes, mexericos, política, músicas, propaganda, apresentação de famosos, etc.<br><br>Eram muitas as rádios que disputavam a nossa atenção: Record, Tupi, Difusora, Panamericana, São Paulo, Gazeta, Cultura, Bandeirantes, América… E estávamos sempre ouvindo, porque utilizando apenas nossa audição, podíamos continuar nossas tarefas. Nossa, que coisa boba eu disse! Não eram apenas nossos ouvidos que estavam ocupados: nossa imaginação corria solta, mil imagens povoavam nossa cabeça, as emoções nos dominavam…<br><br>Novelas de Janete Clair (entre outras mil); Teatro de Manuel Durães, aos sábados e domingos (passando pelas ruas dos bairros, era possível saber – através do som que escapava pelas janelas – que todos estavam ouvindo); a história das malocas, do Oswaldo Molles; o "Crime não compensa", com casos policiais reais; "Só para mulheres", programa vespertino e de auditório; a Escolinha da ‘Dona’ Olinda, com Nhô Totico; a música de manhã repetia: "Olha a hora, vambora" e a gente corria para o trabalho; as transmissões esportivas eram fabulosas; o homem do tempo também; a possibilidade de conhecer outras coisas do nosso país continental… Até ginástica fazíamos pelo rádio!<br><br>O rádio não era sem fio e, na maioria das vezes, havia apenas um em cada casa, portanto, a família ficava junta em volta dele, no principal cômodo da casa. Percebem a diferença com os dias de hoje? Fui testemunha de um fato interessante: não sei se foi a Tupi ou a Difusora que resolveu fazer uma apresentação lá no auditório do Sumaré de todos os seus artistas de novela, atendendo aos pedidos insistentes dos fãs (das fãs, na sua maioria). Distribuíram até um cartão postal com as fotos de todos. Houve muita gente desiludida com a diferença da imagem que tinha construído na sua cabecinha e a realidade. Muito semelhante ao que ocorreu quando o cinema mudo passou ao falado.<br><br>Outra coisa que não posso deixar de registrar é que, além de tudo isso, o rádio me apresentou o meu querido companheiro, marido, cúmplice, por mais de 50 anos. Muita gente ainda deve lembrar-se dele: Alfredo Gramani, radio-ator que interpretava qualquer tipo, inclusive tinha um quadro extremamente engraçado com a Nair Bello. Imagino como ele deve estar admirado da liberdade que se tem no rádio hoje em dia. Adorava dizer coisas fora do script ("caco") e era multado ou suspenso muitas vezes.<br><br>Então, aqui vai meu "mea culpa", pedindo perdão ao rádio paulista por este imperdoável esquecimento que espero ter reparado a tempo. Você – meu querido rádio – continua sempre me acompanhando em todas as horas. Com características diferentes sim, mas sempre cumprindo a sua missão.<br><br><br>E-mail: [email protected]