As artes são muito mais importantes em nossas vidas do que podemos imaginar. Várias são as artes e cada uma delas age em nós de maneiras diferentes, mas todas são percebidas e admiradas por intermédio de nossos sentidos.
Quanto mais sensíveis, quanto mais educados, quanto mais treinados, mais temos a capacidade de nos satisfazer e de nos conduzir ao ápice da beatitude. Sim, elas podem nos elevar a ponto de nos sentirmos beatificados. As artes são meios pelos quais podemos chegar a ter a visão divina.
Devemos ser gratos pelas oportunidades que a vida nos oferece de entrarmos em contato com qualquer tipo de arte, seja a pintura, a escultura, a música, o teatro e, talvez, a maior delas que é a arte da própria natureza que nos oferece dia a dia o brilhantismo das manifestações da vida, seja em que nível for. Mas é preciso incluir também a natureza morta. Muitas vezes ficamos extasiados frente à imponência de uma montanha, de uma formação rochosa, de uma gruta, do mar, dos rios, dos lagos. Enfim, a todo o momento temos diante de nós, de nossos sentidos a beleza. Basta ter a disposição para sentir. Como seria importante a função da escola no preparo das crianças para que afinassem seus sentidos.
Se me permitem, quero dividir com os amigos deste site, experiências que tive em relação às artes e que me fizeram com que me sentisse feliz, realizado, até. E que com certeza foram fundamentais para minha vida profissional e afetiva.
Fui introduzido no mundo mágico do teatro pelos meus pais desde minha adolescência. Com frequência íamos ao Teatro Boa Vista, situado na rua do mesmo nome, no centro da cidade. Para tanto, saíamos da Rua General Osório onde morávamos, tomávamos o bonde na Rua Santa Ifigênia, descíamos no Largo de São Bento e íamos a pé até o teatro. Nesse teatro tive a oportunidade ímpar de assistir interpretações de Procópio Ferreira, pai da maravilhosa Bibi Ferreira, principalmente na interpretação impressionante de "Deus lhe Pague". Incrível sucesso na época. Sua interpretação era tão convincente que, creio, nenhum ator se atreveu em reencená-la, pelo menos na época. Outro grande artista da época era Manuel Pêra, excelente ator, pai da atriz Marília Pêra.
Estudei no Liceu Coração de Jesus. Lá havia um teatro e vi várias peças infantis além de espetáculos de música com orquestra de amadores. Lembro-me perfeitamente de um excelente humorista morto precocemente, o William Fournault. Quando já jovem continuei a ser assíduo frequentador de teatro, agora do Cultura Artística, onde no pequeno auditório assisti, creio que quase todas as peças da inconfundível Dercy Gonçalves. Tendo o cuidado de nunca sentar nas primeiras fileiras de cadeiras a fim de não ser atingido por uma de suas cusparadas! Lembro-me bem de que, como ela improvisava muito, os autores coadjuvantes ficavam atônitos, sem ação diante dela, pois esperavam a imprescindível "deixa" para dar continuidade. Isso também era motivo de risos, além das gargalhadas que ela sempre causava.
Cheguei algumas vezes a frequentar o Teatro de Alumínio no Anhangabaú. Ao Teatro Santana localizado na Rua 24 de Maio eu fui diversas vezes assistir revistas, muito bonitas, inclusive pelas atrizes e recheadas de belas músicas. Nos teatros Oficina e Arena assisti a peças de autores jovens, espetáculos diferentes e avançados para a época. Aí vi a bela e muito jovem atriz, no início de carreira, Eva Wilma, depois consagrada atriz de teatro e de televisão.
Os espetáculos que tive a felicidade de ver no TBC, Teatro Brasileiro de Comédia, marcaram-me profundamente. Além das sempre excelentes peças, tive o privilégio de ver em ação artistas maravilhosos como Sergio Cardoso, Cacilda Becker, Cleide Yaconis, Sergio Brito, Ziebinsky, Nidia Licia, Rui Afonso, Walmor Chagas, Ítalo Rossi, para citar alguns.
Aí tomei conhecimento, pela primeira vez, da existência de grandes autores internacionais como Pirandello, Sartre, Shakespeare, Gorki e Arthur Miller. Junto ao TBC ficava o famosíssimo Nick Bar, que serviu de motivo até para uma conhecida canção. Não é preciso dizer que nunca tive condições de nele entrar.
Fui assíduo frequentador do Teatro Leopoldo Fróes onde tive a oportunidade de ver ao vivo e depois na televisão o incomparável Silveira Sampaio, autor e intérprete de peças de cunho social e político de muito sucesso. Interessante lembrar que Jô Soares foi seu "assistente" em programas ao vivo de entrevistas na televisão.
Fui apresentado à arte do cinema quando bem jovem adolescente ao frequentar um cinema que ficava na mesma rua em que eu morava, a General Osório, o cine Astória. A partir daí tornei-me um cinéfilo inveterado e conheci todos os cinemas da parte central da cidade.
Na leitura, quem me introduziu e despertou a paixão que dura até hoje foram meus pais me presenteando com as edições do Clube do Livro e da Coleção Saraiva. Devo citar que a pessoa que me apresentou à literatura de ficção foi um amigo de meu pai, o Jefferson, que morava numa fazenda e possuía uma bela coleção. Dentre vários que li posso citar o famoso "Ela" de Rider Haggard. Com relação à arte da música também devo minha paixão inicial a meu pai que quando podia, trazia para casa discos de 78 rotações que ouvíamos em uma enorme “rádio vitrola”, lembro-me da marca: “Atwater Kent”, em que se trocava a agulha a cada meia dúzia de discos tocados. Devo agradecer também a amigos meus que me ensinaram a ouvir e a gostar tanto de música dita erudita como também da nossa música popular e ao que me ensinou a ouvir, entender e a degustar óperas. Como consequência, sou hoje e me orgulho de dizer isso, fã de carteirinha da carismática Inezita Barroso e do grande Rolando Boldrin. Vejo sempre seus programas na única emissora de televisão que além da música erudita dá espaço amplo à nossa música chamada de raiz.
Aos domingos eu ia até o Brás, nem me lembro quais e quantas conduções eu tomava para assistir num local cheio de jovens como eu no extinto Cine Universo, música ao vivo com uma enorme orquestra sinfônica, se não me engano, o programa era chamado Concerto da juventude, ou coisa parecida. Fiquei profundamente contente quando soube que iria conhecer o Teatro Municipal, isso graças a meu pai que me havia comprado ingresso para assistir um dos maiores pianistas da época, o Wilhelm Kempf. Pela mesma época assisti à famosa "Mãos de Eurídice", escrita e interpretada por Pedro Bloch. Tive então a oportunidade de ver e saber o que é a incrível beleza do monólogo.
Foi muito importante para mim e para muitos jovens como eu a fundação do MASP, Museu de Arte de São Paulo. Tivemos então a oportunidade de entrar em contato com a arte da pintura e da escultura. No início ele se situava na Rua 7 de Abril, em um local relativamente minúsculo, isso em 1947. No mesmo prédio funcionava o Clube de Cinema. Nele assisti diversas montagens de filmes clássicos, dentre eles eu citaria MacBeth do genial Orson Welles. Em 1968 o museu passou a ocupar na Avenida Paulista seu prédio próprio.
As visitas ao MASP despertaram em mim o desejo de cada vez mais ver obras de grande artistas. Isso foi facilitado após a era do computador com o surgimento da possibilidade de adquirir em bancas de jornal coleções em CD como "Os Grandes Pintores" e a "Enciclopédia Multimídia de Arte Universal". Agradeço aos amigos do site que tiveram a gentileza de ler essas, de fato, mal traçadas linhas. As escrevi pensando que nas nossas escolas deveria haver espaços para que nossas crianças e jovens tivessem conhecimento de pelo menos rudimentos de arte, porque, tenho certeza absoluta que, como disse no início, a formação cultural básica permite que a pessoa veja a vida, as pessoas e as coisas da natureza com visão de respeito e amor, mas que faça isso com convicção e não apenas porque se trata de uma obrigação.
Mas às vezes creio que isso não passa de utopia e produto de uma mente desgastada pelo tempo. Quem viver verá. Como dizia jocosamente um amigo querido meu:
– "Quem não tem cão caça com cachorro". – E eu acrescento:
– "Quem não pode ir ao exterior para ver obras de arte, pelo menos deixe que elas venham à sua casa".
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