Que tal um cinema?

Nos anos 60 a cidade de São Paulo era privilegiada pela quantidade de cinemas que existiam por toda a parte. Não só o centro concentrava ótimas salas, os bairros também. Nas avenidas Domingos de Moraes e Jabaquara (sua continuação), estavam instalados seis cinemas. O primeiro, em frente ao Largo Ana Rosa, era o Cine Cruzeiro. Hoje, em seu lugar, está instalada uma unidade do supermercado Pão de Açúcar, mais a frente ficava o cine Phoenix.

Alguns quarteirões depois, na esquina com a Rua Ministro Manoel Vicente ficava o Sabará, que aos domingos apresentava o Festival Tom e Jerry e por diversas vezes serviu de palco para shows de muitos artistas que ficaram famosos alguns anos depois. Foi nesse cinema que a garotada do bairro de Vila Clementino assistiu aos famosos desenhos de Walt Disney, entre eles Fantasia e Branca de Neve. Aliás, o Cine Sabará por ser bem perto de casa era o mais frequentado pelo pessoal da rua em que eu morava, a Três de Maio. Depois dele havia o Cine Jamor, inaugurado bem depois dos cinemas já citados. Quando desativado, cedeu lugar para um templo que também não se encontra mais no local. Na Avenida Jabaquara havia o Cine Estrela e também o Cine Nilo.

Nos dias de hoje nenhum dos cinemas acima mencionados continua funcionando, todos eles cederam espaço aos supermercados, como o Pastorinho onde funcionava o antigo Sabará, e tantas outras lojas comerciais e templos religiosos. Uma pena, pois era gostoso ir ao cinema aos fins de semana. É claro que os shoppings como o Santa Cruz e todos os outros têm salas confortáveis e bem projetadas exibindo filmes variados. E podemos escolher a vontade o que desejamos assistir, sem termos que nos deslocar do local, o que é muito prático. Mas o cinema daquela época era um “programão”, um verdadeiro acontecimento. Lembro-me de que no centro da cidade havia um cinema que entre uma sessão e outra, aos domingos, acontecia uma apresentação ao vivo de um pianista que tocava lindas melodias.

No inicio da semana separávamos jornais para procurar os filmes em cartaz e escolher o melhor horário. Depois escolhíamos minuciosamente a roupa a ser usada no evento. No sábado pela manhã íamos ao cabeleireiro do bairro para dar um trato nas unhas e cabelos, e então, aguardávamos para ver se o filme valeria à pena.

Uma vez no cinema, após adquirir os ingressos, entravamos na sala de espera e comprávamos as guloseimas para saborear durante a projeção, sempre drops (geralmente Dulcora) e chocolates. Não era permitido comer pipocas ou tomar refrigerantes na sala de espetáculo.

Na maioria das vezes chegávamos no horário e pegávamos o inicio da sessão, mas se por ventura alguém chegasse atrasado, podia entrar normalmente, assistir a sessão até o final e esperar ali mesmo a próxima, para ver a parte que havia perdido. Ninguém era despejado do cinema nem tinha que pagar um novo ingresso.

A sala do Sabará era enorme e quando estava escuro por ter começado a projeção, tínhamos a ajuda do lanterninha que nos acomodava. Ai era torcer para que nenhum cabeçudo sentasse à nossa frente e nos tirasse a visão, o que infelizmente ocorria quase sempre, mas era só mudar de lugar e pronto, problema resolvido, às vezes.

Muitos dos filmes assistidos nos antigos cinemas de meu bairro embalaram namoros e amores da juventude. Músicas maravilhosas, histórias marcantes que até hoje não conseguimos esquecer. As comédias, por exemplo, quem conseguia segurar o riso durante a exibição dos episódios de “O Gordo e o Magro”, sempre ingênuos, mas tão engraçados. Jerry Lewis e seus trejeitos, Cantinflas e o nosso querido Mazzaropi.

Os filmes de época eram: Cleópatra, El Cid, Ben Hur e Spartacus. Fortes, mas sempre com um tom de romantismo. Os clássicos: Sissi a Imperatriz, Oliver, Doutor Jivago e Amor Sublime Amor. Os musicais: “My Fair Lady”, A Noviça Rebelde e tantos outros. Filmes com grandes ídolos do passado e desconhecidos nos dias de hoje.

Quem de nós dos velhos tempos esqueceu Gina Lolobrigida, Sofia Loren, Brigitte Bardot, Kirk Douglas, Toni Curtis, Alain Delon, Charlton Heston, e os nacionais como Grande Otelo, Oscarito, Anselmo Duarte, Tônia Carreiro e Odete Lara.

Foram tantos astros e estrelas que desfilaram seu talento e beleza pelas telonas de nossos cinemas. “Filmões” como dizia meu pai. Bons filmes, filmes inesquecíveis, regulares e até péssimos filmes. Atores e películas que fizeram a felicidade de muita gente que amava o cinema na bela época. A qualidade era bem superior à de hoje, mesmo com toda a modernidade e tecnologia.

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