Uma pequena história de ruas da cidade de São Paulo

Dentre todas as grandes mulheres que conheço, escolhi uma para falar hoje e dividir uma breve história com vocês.

Perto da minha casa há uma lojinha de produtos orientais. Sempre passo em frente e todo esse tempo ficava olhando, olhando, mas nunca tinha parado. Até que um dia fui fazer algumas coisinhas por perto, resolvi parar e dar uma bisbilhotada, na intenção de comprar apenas massa para fazer rolinho primavera.

Logo na frente estava à senhora Célia, sentadinha em uma cadeira de plástico na calçada, com um avental e óculos de grau. Assim que cheguei, ela abriu um sorriso de boas vindas, me cumprimentou e eu comecei a dar uma olhada nos produtos. Pedi a massa, ela já correu para pegar na geladeira um pacote fresquinho e então começamos a conversar sobre comida. Engatamos em uma conversa que terminou 2h depois. Sim, fiquei 2h dentro da tal lojinha conversando com essa senhora incrivelmente simpática e saí de lá com a sensação de que o dia já tinha valido à pena.

Quando disse que tinha estudado jornalismo, ela ficou super estimulada a perguntar e interagir comigo. Pude tirar dúvidas sobre a culinária japonesa e ainda ela me passou um monte de dicas. Dicas de reaproveitamento de carnes para fazer molhos, de como fazer alguns temperos em casa, como conservar, como plantar temperos, sobre reciclagem de óleos, etc.

Enquanto ia me contando sobre sua vida ali, eu passeava pela loja enchendo aquela senhora de perguntas. Cada produto que desconhecia, perguntava e a senhora Célia me explicava nos mínimos detalhes, dizendo com o que ficava bom, qual marca era boa, qual era sua preferida. Conheci tanta coisa, e acabei gastando até mais do que deveria, mas não resisti.

A senhora Célia, de traços orientais e uns 60 e poucos anos, com um sorriso constante no rosto e uma boa vontade de dar gosto, nasceu aqui no Brasil, mas seus pais vieram de Hiroshima ou, como a mesma disse:
– "Da cidade que explodiu aquela bomba".

Morou no interior de São Paulo e se casou com um oriental também, que trabalha com ela na loja.

No meio da conversa, contou que a loja iria fechar por razões pessoais e que não queria ficar em casa vendo televisão:
– "Eu gosto de gente, de conversar, não quero envelhecer e ficar parada" – ela me disse toda feliz.

Mãe de três filhos, já todos adultos e bem criados, ela e marido abriram a lojinha. Perguntei o que pretendia fazer depois de fechar, e ela me respondeu que gostaria de fazer trabalho voluntário. Achei lindo, e disse que por perto há muitas creches de crianças e que conhecia algumas e se quisesse o nome e o endereço arrumaria, mas aquela senhora japonesa me surpreendeu e disse que quer ajudar idosos, principalmente os que têm mal de Parkinson e Alzheimer. Achei de uma grandiosidade tamanha, sortudos serão os idosos que ficarão aos cuidados daquela bondade e simpatia toda em menos de 1,60 de altura e olhos puxados.

Uma pena eu ter conhecido a loja agora, bem quando está para fechar. Acredito que passaria lá toda semana apenas para conversar com a senhora Célia e escutar suas histórias e anotar suas dicas e receitas. No final das contas, saí de lá admirando muito aquela senhora cheia de vida e sorridente, com duas sacolas muito cheias e o telefone dela para eu ligar quando precisar e quiser tirar qualquer dúvida.

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