<br>I – Entre os anos 60 e 70, morando na Vila Gumercindo, eu tinha que me valer daquela linha de ônibus para ir ao trabalho e dele voltar. E o letreiro da linha é que me deixava mais que curioso: intrigado. "Barra Funda – Vila Mariana". Em cujo ponto final eu embarcava. Praça Brás Gonçalves, o lugar. Entre o Bosque e o Jardim da Saúde. Como então "Vila Mariana"? Esquisito. Uma inexatidão. Para mim era inexplicável o letreiro.<br><br>II – Eu lembro bem. Linha da empresa U.T.I.L., realmente de grande utilidade, pelo percurso que cobria. Inútil era reclamar da grande volta que dava. Eram os belos, confortáveis e silenciosos ônibus monoblocos, aqueles Super B. Muitos lembram. Embora isso tenha sido há tanto tempo, para mim terão sido aqueles os ônibus brasileiros mais bem feitinhos. Inovavam como nacionais com grande motor traseiro. Espaçosos também para o motorista. Marcou época o Super B.<br><br>III – Diz minha memória: a U.T.I.L. era daquelas empresas (e havia várias) de uma linha só ou duas. Aquela sigla U.T.I.L. era pintada de letras graúdas na lataria. Brancas ou amarelas senhora memória? Assim como caprichosamente era pintado um cão galgo, vermelho. Ônibus aqueles de cor meio cinza com faixas azuis, meio escuro. Veículos bem cuidados. Lembro disso.<br><br>IV – Nos anos 50 eu os via às vezes. Os ônibus interurbanos, cor de alumínio, de uma porta só, que partiam de sob os arcos de ferro do Santa Ifigênia. Com destino a Mogi, pela Via Dutra ou via Penha. E São Miguel Paulista e Itaim Paulista – pela Estrada Velha São Paulo – Rio, cujo (esse) lindo nome haveria que ser trocado. Infeliz e injustificadamente por outro que nada refere a São Paulo ou ao Brasil. E na lataria dos ônibus, um galgo igual. Linha na qual jamais viajei. Eram os rápidos Volvo/Carbrasa. Diziam as plaquinhas, assim mesmo: "Carbrasa Carrosserias Brasileiras. Parada de Lucas. Rio de Janeiro". Ônibus iguais aos da Pássaro Marron, à época marrom mesmo. Muitos deles em São Paulo, exceto a CMTC.<br><br>V – Fotos antigas é que mostram. Várias empresas pintavam aquele mesmo galgo nos ônibus. Ideia de velocidade, o cão de corrida, não? Galgos todos copiados, claro. Do galgo sobre pneus o mais famoso do Mundo: o da americana Greyhound – também a maior empresa, certamente. Que jamais conheci ao vivo, in loco. Só de cinema ou de TV e de anúncios das revistas Lei e Seleções. Anúncios até do tempo da Segunda Guerra, a Greyhound. Eu ouvia falar: a Viação Cometa era a "Greyhound brasileira", de vanguardeira. Terá sido? E o Expresso Brasileiro? Não ficava atrás.<br><br>VI – Aquela linha para a Barra Funda, que eu utilizava e apeava dela nos Campos Elíseos. Cujo histórico Palácio já não mais governava, de lá. Pois eu descia à porta do prédio administrativo do SENAI. Barão de Limeira, 539 – telefone e caixa postal já diluídos na memória… Onde em 1971 ingressei. Como funcionário da secretaria geral, orgulhosamente. SENAI, exatamente quase ao lado da Folha – redação e oficinas gráficas à época. Jornais ainda em preto e branco.<br><br>VII – Paulistanos contemporâneos de meus 63 anos de paulistanice. Estes lembrarão. De que a Folha de São Paulo surgiu da "fusão" de três outras Folhas. Antecessoras e que duraram até os anos 50. As "da Manhã", "da Tarde" e "da Noite", não? Cujos antigos exemplares (alguns), para conhecer, eu os folheei na coleção do Arquivo do Estado. Nestes jornais vim a descobrir as belíssimas e inteligentes ilustrações de Belmonte. Ilustrações criativas e que valorizam a história e a cultura paulistas. Ilustrações que deveriam reaparecer.<br><br>VIII – Ainda que leigo, sempre gostei dos ônibus paulistanos. Sempre atento a detalhes: marcas, tipos, linhas e as cores dos ônibus. Então não havia como não notar. Entre o fim dos anos 50 e o começo dos anos 60 emerge do horizonte (dos ônibus paulistanos) uma estrela. Chanfrada, de prata, de três pontas – na "cara" de cada novo ônibus que surgia. Estrela de sotaque alemão. Em todas as carrocerias, sem exceção. E que domina a paisagem das ruas. Quer com os belos monoblocos, quer com os irmãos (de mecânica) dos monoblocos, os chamados de "Mercedinha" – de motor OM e chassis LPO, siglas que jamais decifrei. E, ambos, põem para correr (para o ferro velho) tudo quanto que os antecedera: os velhos “coaches” americanos remanescentes e outras marcas, de origem européia. Era o alvorecer de uma supremacia claramente percebida até pelo mais indiferente dos passageiros. Ascensão de uma estrela. A "sua boa estrela". Marcaram época.<br><br>IX – Memória dos ônibus paulistanos. Grassi, de Vila Leopoldina. Caio, da Guaiaúna. Striuli, da Penha. Massari, de Vila Maria quase Parque Novo Mundo. Todas paulistanas, carrocerias de ônibus de sangue ítalo-brasileiro. Ainda nos anos 60, São Paulo produz muitas carrocerias. E ao lado do Rio, nos anos 70, passa o bastão para o Sul. Gradativa mas irreversivelmente, o Sul domina o mercado. Tal qual o Marco Pólo que não se detém. São Paulo? Não monta ônibus algum. Nem os de brinquedo: que as fábricas se foram.<br><br>X – É claro que passageiro algum deve ter dado qualquer importância. Afinal, o fato não atrapalhava. Mas eu é que achava interessante – melhor, esquisito. O fato de que, além daquela "Barra Funda", àquela época mais quatro ou cinco linhas tinham letreiro "Vila Mariana". E iam além. Além dos limites vilamarianenses. Eram linhas "Vila Mariana" que tinham ponto final em Mirandópolis. Ou na Praça da Árvore. Ou na Rua Juréia. E até mesmo aqui perto de casa: no coração da Vila (Gumercindo). Esquisito? Para mim sim.<br><br>XI – Bom. Demorou mas chegou finalmente, ansiosamente por todos nós almejado, o metrô! A coisa agora é "transporte de massa". Vila Mariana então ganha estação. Por sinal, perto de onde no passado outra estação abrigava outros trilhos – os dos bondes. A estação metroviária vilamarianense vem com um terminal de ônibus a tiracolo. O "Barra Funda" com o galgo, chegara à hora deles.<br><br>XII – Ponto final na breve viagem ao passado paulistano. É hora de descer do monobloco de cor meio cinzenta. A porta traseira, de quatro folhas, vai se fechar. Quem quiser ver ou rever algum dos velhos ônibus, terá que galgar outras opções.<br><br>XIII – Primeiramente a internet, os documentários, fotos de livros, revistas e exposições; os próprios ônibus preservados de museus, empresas ou colecionadores. Enfim, veículos nos quais a nostalgia encontra guarida.<br><br>XIV – Outro caminho é o belo site SPMC. Como que uma estrada do passado paulistano – ou uma rua ou avenida iluminada pelos belos postes ornamentais de ferro canelado – um chão de estrelas da São Paulo de outrora. Chão pelo qual dispara o cão galgo no rumo do infinito. Vupt!<br><br>XV – Os ônibus paulistanos. Verdadeira epopéia já há quase um século nas ruas da Cidade – ruas de terra, de paralelepípedos e de asfalto. Indiferentemente ao tempo. Incansavelmente viabilizando o ir-e-vir de nós, paulistanos. Essencialmente. Orgulhosamente – os nossos ônibus do dia-a-dia – ostentando um letreiro que brilha, resoluto, inflexível: "Não sou conduzido. Conduzo!".<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>