1975 vivíamos sob o obscurantismo do regime militar. Vladimir Herzog tinha sido torturado e morto. Dias depois seria rezada a missa de sétimo dia. Marcada para a catedral da Sé. Além de Dom Paulo Evaristo Arns, o paladino da voz do povo com os militares, também o rabino Henry Sobel, representante da religião judaica estaria presente, já que Vlado era Judeu. Outros representantes de religiões também estariam presentes. Mas os militares não estavam vendo com bons olhos. Não poderiam proibir, pois atos religiosos são permitidos pela constituição, mas pelo fato de o assassinato ter sido brutal e a mentira do suicídio não ter colado. A estratégia foi fazer uma operação padrão, que consiste em fazer revista em carros e ônibus pelos principais corredores de trânsito. Houve um congestionamento monstro. Todas as pontes foram bloqueadas. Era uma operação lenta que tinha somente o propósito de impedir a presença do povo na Praça da Sé. A ponte mais vigiada e lenta era a Ponte da Cidade Universitária (USP).
Na Avenida Francisco Morato uma mulher não resistiu tamanho nervosismo e teve um infarto, falecendo dentro do ônibus. Eu que estava no meu carro e vinha voltando da zona norte, e bem informado pelo rádio do carro do que estava acontecendo, fui barrado na ponte da Casa Verde. Eu tinha uma Variant 75, bege. Ao ser parado dei meus documentos, meu carro vistoriado assim de leve, sem que nada fosse retirado. Mas o interrogatório foi de chorar. O policial começou a me inquirir sobre de onde ele me conhecia. O diálogo foi assim:
– Meu, te conheço não sei de onde.
– É mesmo, por acaso o amigo jogou futebol?
– Sim, joguei, disse o policial.
Aí fui em frente.
– Se jogou na Vila Olímpia, Itaim Bibi, devemos ter jogado contra.
– Sei lá sua fisionomia não me é estranha. Não é daí que devo ter te conhecido. Parece-me, que…
O que ele queria dizer na verdade, é que me conhecia de uma delegacia ou penitenciaria. Percebi que o policial era meio gozador. Aí o papo foi dos mais estranhos. Outras abobrinhas foram ditas. Risos, daqui e ali. Só que quem estava atrás estava nervoso. Pois tudo estava parado. Ninguém ousava tocar a buzina, coisa normal num congestionamento. Quando o policial viu que já tinha feito seu papel deixando o trânsito ficar parado todo aquele tempo me dispensou. O carro seguinte passaria por outro interrogatório. Tal procedimento se deu em outras oportunidades. Era uma das características do governo militar quando queria impor suas ordens sem ferir alguém externamente. Mas que doía por dentro isso era verdade. Vivemos anos de chumbo, e de tutela militar. Na verdade mandava quem podia, e obedecia quem tinha juízo.