Semana Santa: uma ópera de rua em Moema

Ainda me lembro bem. Estava atrasadíssimo para a cerimônia da Semana Santa na Igreja de Nossa Senhora Aparecida, em Moema, naquele ano de 1950. O motivo do atraso se deveu a um pequeno acidente comigo. Pela primeira vez eu iria usar uma calça comprida. Ela tinha sido comprada para ser usada em meu primeiro emprego, como "Office boy", em uma grande empresa que tinha seu escritório no décimo andar do Edifício Conde Matarazzo, no Anhangabaú, onde hoje está a Prefeitura de São Paulo.

Deveria começar no trabalho na segunda feira, então aproveitaria para estreá-la nas festividades da Semana Santa. Na sexta feira pela manhã retornei com minha mãe às Casas Minerva, se não me engano hoje é a rede das lojas Square, que ficava ali na Rua Vergueiro, Vila Mariana, próximo do Largo Ana Rosa, para retirar a calça que havia deixado para fazer a barra. Experimentei a calça em casa e ao passar do quarto para o quintal tive a infelicidade de fazer um rasco na calça novinha na ponta de um prego no caibro que sustentava o varal de roupas.

Minha mãe levou a calça para a senhora Cotinha, costureira e cerzideira, para consertar o estrago, duvido que naquela época existisse em Moema uma cerzideira melhor. Nossa vizinha na vila onde morávamos tinha "mãos de ouro". Ela prometeu para o fim da tarde e nos tranquilizou que entregaria antes da procissão do Senhor Morto. Aquela calça comprida tinha para mim dois simbolismos importantes: um, seria o inicio de uma nova vida ao começar a trabalhar, com carteira "de menor" assinada, e poder ajudar no orçamento doméstico; outro, naquele momento, era a minha efetivação como membro da Congregação Mariana da Igreja de Nossa Senhora Aparecida, ocasião em que receberia a fita estreita de congregado.

A cerimônia de entrega das fitas seria durante a celebração da missa, após o desfile da procissão. Fatos que me deixavam ansioso por este rito de passagem: trabalho e Congregação. Não lembro bem o que aconteceu com alguém da família de senhora Cotinha que atrasou o serviço. Ela, porem, cumpriu a palavra e entregou, sob minha pressão parado na porta da casa dela, antes da procissão. Só que esse, "antes", era de apenas dez minutos. E tome correria. Eu morava na Alameda dos Tabajaras, hoje Alameda Nhambiquaras, a quatro quadras da Praça Nossa. Senhora Aparecida.

Vesti-me apressadamente e sai correndo. Desci a Alameda Jurema, peguei a Alameda dos Tapuias (hoje Alameda Maracatins), entrei na Alameda Jamaris, depois na Alameda Jurupis, finalmente na Rua Divino Salvador e pronto, cheguei esbaforido à praça da igreja. Por mais que eu corresse achava que não iria chegar antes da saída da procissão. Estava aflito e dali a pouco estaria frito com o tamanho da "bronca" que levaria do Pedro tendo o olhar de reprovação do Zé, os dois Coordenadores da Congregação dos Marianos. O Castigo para quem chegava atrasado era ficar no final da procissão.

Se eu estivesse na hora, ficaria próximo ao andor, junto com o grupo de Congregados. Não deu outra, cheguei atrasado. O Pedro não deu a esperada "bronca" na hora em que a procissão já começava a sair. Olhou-me com ar severo e fez o gesto de ir para o final da fila de fiéis. Lá fui eu sendo gozado pelos colegas Congregados, amargando uma punição humilhante e receoso de que pudesse, por represália, não receber a minha fita naquele dia.

O nosso pároco naquela época era o Padre Roberto, de origem alemã. Ele falava um português arrastado com forte sotaque alemão. Nós, Congregados fita estreita, os mais moleques, ficávamos remendando-o baixinho:
– "Minhas carros parroquianos…".

Brincadeira maldosa com quem tinha uma alma de santo, sempre pronto a ajudar os necessitados do bairro.

Tudo pronto, como num teatro. Os fiéis, sentindo-se como atores, se postavam em suas marcações obedecendo a "Reggia" de Padre Felipe, que mais tarde viria a substituir temporariamente Padre Roberto, sendo substituído depois pelo Padre Afonso. A movimentação seguia um roteiro da "mise en scéne" imposto pela tradição de anos para essa festa religiosa: no interior da igreja panos roxos, cor que simboliza a espiritualidade da tristeza e da compaixão, cobriam as imagens dos santos expostos no altar e nas prateleiras das paredes. Na parte baixa do altar uma mesa com toalhas roxas e bordados dourados, recebiam o corpo morto de Jesus, representado por uma escultura em louça. Os fiéis em fila dirigiam-se a mesa onde estava o Cristo para acariciar seu rosto ou beijá-lo, fazendo sua penitência em uma atitude contrita dos próprios pecados, quem sabe, pedindo o perdão divino ou a absolvição do anátema que eles preconizavam.

Quando eu atuava como coroinha era curioso e ficava observando os rostos contritos dos fiéis na presença do Cristo. Pensava: “Que pecados atormentam aquelas almas, seriam capitais ou mortais. Seria um ódio contido à um desafeto? Quem sabe, talvez, a soberba, ou um afastamento dos preceitos religiosos, blasfêmias, inveja, infidelidade, humilhação e violência contra esposa e filhos”. Fosse qual fosse, perdoável ou grave, sempre haveria a possibilidade de rogar o perdão se não hoje, talvez em uma confissão qualquer dia, ou quem sabe na procissão do próximo ano, protelando-se, assim, pela fraqueza humana, o acerto com o divino indefinidamente.

No momento da saída da procissão havia dois andores enfeitados com folhagens e flores: um, para o corpo do Cristo, que seria colocado em um caixão de vidro transparente, e o outro com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Ambos eram carregados pelos zeladores do Sagrado Coração de Jesus, que de tempos em tempos, revezavam-se durante o percurso.

A frente do préstito, solene, Padre Felipe, como se fora o protetor dos andores comandando um exército de fiéis. Um pouco atrás postados como guardiões da Santa e do Cristo, colocavam-se à direita, os Zeladores e as Zeladoras, portando os estandartes escarlates da Congregação do Sagrado Coração, com a imagem de Jesus ao centro ornado em dourado com a frase: "Venha nós ao vosso reino". A esquerda as filhas de Maria seguidas pelos Congregados, também com seus estandartes. Atrás de Padre Felipe, o Sacristão portava a cruz, comandando os coroinhas, cerca de quatro.

Cada um desses grupos tinham seus uniformes todos limpos, engomados e passados como exigia o cerimonial. Padre Felipe, vinha todo paramentado de batina preta tendo por cima uma sobrepeliz rendada, uma capa de asperge preta bordada com arabescos brancos, uma estola roxa por sobre os ombros e um barrete roxo com pompom, e na mão o processionário, envolto num terço, elementos de tradição litúrgica. Os zeladores com seus ternos e sapatos pretos, camisa branca, gravata e a fita escarlate da Congregação do Sagrado Coração pendurada no pescoço tendo na ponta uma medalha prateada em alto relevo com a imagem de Jesus. As Zeladoras cobriam o rosto com um véu e vinham totalmente vestidas de preto tendo a fita escarlate, com medalha de prata em relevo, idêntica as dos zeladores.

Os congregados vinham com seu traje habitual, calça e sapatos pretos, camisa branca de mangas compridas e fita azul com a medalha de Nossa Senhora na ponta, em torno do pescoço. Já as filhas de Maria mantinham a tradição de personificar a pureza de Nossa Senhora trajando branco. Meias, sapatos, saia plissadas, blusas e véus brancos e fita azul com medalha de Nossa Senhora em torno do pescoço. Os demais fiéis que seguiam a procissão mantinham o rigor da discrição no vestir pedido pela ocasião.

O inicio da procissão se dava no interior da igreja. Padre Roberto retirava do altar a imagem da santa padroeira e a colocava no andor. Os zeladores erguiam o Cristo da mesa e o colocavam no caixão transparente, transferido para o outro andor. Dada a benção pelo Padre Roberto o préstito começava a se movimentar. Por causa de sua velhice, Padre Roberto, geralmente não acompanhava as procissões e permanecia na igreja até sua volta, quando então celebrava a missa. Daí para diante ele passava o comando ao Padre Felipe.

Os momentos mais dramáticos e belos da procissão se davam com a participação da Terezinha. Esta moça era filha dos Cury, família católica tradicional de Moema, que morava na Jurupis. Terezinha tinha um belíssimo timbre de voz, que certa vez nosso professor de Canto Orfeônico, disse-me ser de um Soprano Lírico. Ela ficava ao lado do Padre Felipe e cantava a capela nas paradas que se fazia lembrando algumas estações da "via crucis". A igreja de Nossa Senhora Aparecida não fazia a encenação da "via crucis", com atores amadores, como era tradição em outras paróquias e cidades do interior. Tampouco, se cumpria todas as estações, apenas algumas, em pontos estratégicos do percurso, como no bazar dos Frassati, na Av. Jandira, outra no Balão do Bonde de Indianópolis e na Parada Largo Franco, finalizando diante das escadarias da Igreja.

A procissão saia da igreja pela Divino Salvador, pegava a Alameda Tapuias (Alameda Maracatins), subia a Jurema, passava pela Rua do Comércio (hoje Rua Anapurus) e descia a Jandira, onde parava na casa dos Frassati, família católica, respeitada pelas suas ações de benemerência e ativa participação comunitária e religiosa, seguia até a Ibirapuera e de lá até a Praça da Matriz. Por onde passava ia arrastando a multidão que acompanhava em silêncio. Era mais do que um silêncio obsequioso, um momento de reflexão, em que através da catarse coletiva de dor e piedade, se elevava a alma na busca do perdão pelo sofrimento imposto ao filho de Deus. O respeito se impunha espontaneamente, fazendo com que os estabelecimentos abertos tais como, bares, padarias, lojas etc. baixassem suas portas.

O silêncio que acompanhava a procissão só era quebrado pelo som das matracas, agitadas pelos coroinhas de quando em quando, e pelos cânticos entoados em cada estação, iniciados logo após a performance da Terezinha,e eram puxados pelas zeladoras alguns e outros pelas Filhas de Maria. Durante o trajeto, Terezinha ia cantando seus hinos que induzem à purificação da alma pela sublimação do amor ao Cristo. Os fiéis, postados nas calçadas, iam se juntando ao préstito assim que passava, reforçando a força dos hinos com suas vozes. A procissão ia se tornando cada vez maior, chegando ao final com o triplo de fiéis.

Ao parar na frente da casa dos Frassati, que era bem próxima da minha, vi minha mãe conversando com Pedro, nosso coordenador. Ao passar, Pedro aproximou-se de mim e disse-me estar tudo bem, pois minha mãe tinha contado nossa peripécia com a calça e o atraso da cerzideira, então me mandou para junto do grupo de Congregados. Foi uma alegria só.

Para mim, o momento de maior dramaticidade, sempre foi quando Terezinha, na parada Largo Franco do bonde, na Avenida Ibirapuera, em cima de um pequeno praticável, interpretava Verônica. Ela, cantando, ia desenrolando um lenço branco pontilhado de sangue estampando o rosto de Jesus e o exibia ao público. Um rosto, apesar de machucado, sereno, sem ódio, perfeitamente em sintonia com o universo abençoado por seu Pai. Era de fazer as lágrimas correrem para uns, marejarem para outros e alguns soluços abafados que se ouvia vindo do meio daquela platéia silente. Nunca me esqueci dessa passagem. Naquele momento a massa que acompanhava a procissão, por já estar anoitecendo, acendia as velas e os círios, que transformava a avenida em um cordão iluminado seguindo em direção à praça.

Ao chegar a igreja, Terezinha fazia sua última récita. Seu cântico final do alto da escadaria era um hino de dor na despedida da ultima estação, a do sepultamento de Jesus. Simbolicamente, o altar seria a morada momentânea do corpo. Naquele momento ela mostrava a força de sua interpretação, sonora, aveludada, cujos agudos da despedida soavam como que um breve adeus de um vindouro encontro com Ele.

Após a missa fui chamado até o altar para receber minha fita de Congregado e ao voltar-me para a assembléia lá estava ela, minha mãe, orgulhosa daquele menino que já começava a ficar um homenzinho. A multidão se dispersava deixando o cenário da Praça Nossa Senhora Aparecida, solitário como se nos dissesse que terminara o espetáculo da ressurreição, mas o da nossa vida continuava.

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