Conheci a Estação Roosevelt em 1972 quando fui fazer exame vestibular para Engenharia Civil na Universidade de Mogi das Cruzes, a UMC, na época somente era Faculdade de Engenharia de Mogi das Cruzes, a nossa FEMC. Lembro ter colocado o adesivo no vidro traseiro do fusca 1966 assim que comecei a cursar Engenharia. Era branco com letras pretas com 10 por 25 cm.
Foi também nesse ano de 1972 que conheci minha mulher. Posso dizer que foram dois amores que curto até hoje, minha mulher e minhas lembranças da faculdade. A Rooselvelt está num canto do meu coração. Era onde encontrava os colegas para conversar sobre a escola ou para simplesmente papear. Havia muitas meninas da Arquitetura, Medicina, Odontologia, Biomédicas que iam para pegar o trem… Sempre se conhecia gente interessante e diferente. A viagem passava num piscar de olhos. Quando se dormia era acordar para descer do trem. Existia a nossa universidade e uma outra que também estava se formando. Estavam se formando as universidades, não os alunos.
Os trens tinham muito movimento e era divertido. Aparecia de tudo! Xadrez, caxeta, crepe, buraco, palavra-cruzada, jornais, revistas, projetos, trabalhos de escola, pedrada, calouras e calouros. Quando não era ir lendo e estudando para a prova que ia acontecer e a gente não queria ficar de … Esqueci até o nome. Acho que é trauma e bloqueio de lembrar de um nome tão desagradável. Acho que seria reprovação da matéria. Lembrei, recuperação. Peguei duas no primeiro ano e uma no quarto ano. Cálculo Integral e Diferencial, Resistência dos Materiais e Mecânica dos Fluidos. Pedro, Pedro, Pedro… Mas afinal ninguém é totalmente perfeito. Enfim, passou. Mesmo ainda eu sonhando até hoje, de vez em vez, que vou ter prova e preciso estudar. E acordo encantado que as minhas preocupações sejam tão diferentes hoje em dia e ainda meu subconsciente me prega peças.
Muitas manhãs meu pai me levou da Barra Funda para o Brás para pegar o trem dos estudantes. Ele tinha menos idade do que eu tenho hoje. Às vezes eu ia de carro e deixava o fusca nos arredores da estação. Estranho lembrar que nunca fiquei tão próximo de meu pai como naquelas manhãs que íamos conversando, talvez nivelando nossos 35 anos de diferença de idade. Talvez uma despedida… Muitas coisas divertidas aconteciam como no dia que desci para pegar o jornal no jornaleiro e voltando lendo entrei no carro de uma mulher que já estava em pânico. Outras tristes como na Marginal fomos parados pela polícia técnica para acendermos os faróis. Naquele escuro começo de dia era preciso iluminar o “doginho” para ser fotografado. O carro estava abraçando um poste com três garotos mortos dentro, que voltavam de uma festa. Foi muito triste. Pior quando o trem dos estudantes bateu. Perdemos 26 colegas sendo três da minha turma, sem esquecer o susto, pois meu irmão estava no trem. Meu pai branqueou e eu percebi que gostava muito do meu irmão. Levamos duas horas para encontrar a figura numa república, naquele tempo sem celular.
Minha lembrança da Roosevelt muitas vezes é a associação dela com do meu pai em todas manhãs que o velho mais moço que eu me levava para estudar. Bons tempos. Meu irmão fez Engenharia Mecânica na mesma escola. Ele foi da primeira turma de Engenharia de Mogi das Cruzes em 1970, eu fui da terceira turma de Civil em 1972. Ele estudava de manhã e eu de tarde nos dois primeiros anos. Às vezes a gente se encontrava. Os trens suburbanos saiam da Roosevelt a cada vinte minutos e levava oitenta minutos até Mogi. Eles não tinham locomotivas, eram nove vagões motorizados, com passagem entre eles de três em três, sem ar condicionado. Iam parando em todas as estações e muitas pedras eram atiradas, não sei por quem, que quebravam as janelas. Havia o trem expresso que era chamado de Trem do Rio. Era de aço inoxidável, ar condicionado e janelas lacradas, com locomotiva e cinco vagões, que ia e vinha do Rio de Janeiro e parava em Mogi das Cruzes às 15h40. Eram 40min até São Paulo, viagem sem paradas num ar condicionado que era uma delícia. Bons tempos de trem que acho que não voltam nunca mais.
O União levava os dois filhos para a Estação Roosevelt todo santo dia e nunca perdi o trem quando ele me levava. União era apelido pois jogava futebol no Clube União. Eu pegava o trem expresso das 10h20 e sempre lembrava que era o mesmo horário que eu nasci e não ia poder perder… Depois meu pai adoeceu e não me levava mais. Meu pai não me viu formado, foi embora no dia de Reis de 1976, ano da formatura. Foi então que aconteceu. Eu perdi o meu querido trem na saudosa Estação Roosevelt.
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