Essa paixão começou a existir desde antes de eu nascer, pois durante o meu estágio na barriga da mamãe (entre 1932 e 1933) eu ia ao cinema e muito bem instalada. Mesmo depois, lá estava eu ganhando uns "lanchinhos" extras durante a sessão, pois bebês eram permitidos desde que não chorassem. Vocês sabiam disso? E assim, precocemente, iniciei essa relação que vai durar para sempre. Fico maravilhada, pois no cinema tudo é permitido. Nem quero que me expliquem como foi feito o que estou vendo: quero saborear aquela magia, viver tudo aquilo, sentir todas aquelas emoções, participar…<br><br>Não me esqueço de todas aquelas salas em que, aos domingos, e às vezes, às quartas feiras, isso acontecia: Cine Coliseu – Largo do Arouche; Royal – Rua Sebastião Pereira; Paratodos – Rua Santa Ifigênia; Santa Cecília – Avenida General Olímpio da Silveira (que o Saidenberg cultua); São Pedro – Rua Barra Funda. Outros já ficavam mais longe e demandavam a presença de um adulto: Metro e Broadway – Avenida São João; Odeon (várias salas) – na Rua Dom José de Barros; Art Palácio – Largo Paissandu. Às vezes, íamos a algum cinema em outro bairro, atraídos pelo filme que queríamos assistir, mas isso não era frequente.<br><br>A sessão da tarde era composta de dois filmes, seriado e jornal, com intervalo muitíssimo importante para iniciar a socialização das crianças e adolescentes que lá estavam. Quantas amizades e namoros começaram nesse espaço tão rico!<br><br>Mas, quero contar um episódio que me marcou muito, embora não tenha diminuído em nada o meu amor pelo cinema: eu e meus dois irmãos fomos num domingo ao cine Rialto, lá na Rua João Teodoro. Longe, mas como eu estudava lá perto e era a mais velha, meus pais consentiram. A sessão da tarde atrasou um pouco e quando acabou já era quase hora de começar a da noite.<br><br>Naquela confusão de entra e sai de muitas pessoas, os funcionários não conseguiram esvaziar completamente a platéia. Vi – cinéfila ardorosa – a possibilidade de assistir mais dois filmes diferentes. Pedi a um dos irmãos (João, o do meio) que telefonasse para casa e avisasse que íamos chegar um pouco mais tarde. Quando ele voltou, o filme já tinha começado e não ouvi a resposta quando perguntei se tudo estava bem lá em casa. Eu não sabia (ou não quis ouvir) que o telefone estava ocupado, que a fila era muito grande para usá-lo novamente e que, portanto, eles não estavam avisados da nossa demora. Deliciei-me com mais uma sessão completa da minha paixão.<br><br>Como o prazo para voltarmos já se havia esgotado há muito tempo, o papai – já desesperado – foi até o cinema para perguntar por nós. Não o deixaram entrar, alegando que toda a platéia da tarde havia saído sem nenhum incidente. Daí, ele foi para a delegacia que ficava no Largo General Osório. O delegado de plantão recebeu-o, consultou hospitais e necrotério e procurou acalmá-lo. Recomendou que ele fosse para casa e esperasse. O papai "calmamente" desprezou o elevador e desceu correndo as escadas e… Foi preso. Um ladrão havia fugido naquele momento. Levado novamente ao delegado, apesar dos seus protestos, foi reconhecido:<br>-"Larga o homem, esse coitado está à procura dos filhos. Logo três de uma vez!".<br><br>Á essa altura, já estávamos em casa nos braços da mamãe, chorosa e aliviada. Não vou contar o castigo quando o papai chegou. Foi duro, mas altamente merecido…<br><br>Jamais culpei o cinema por isso, amei-o mais ainda porque ele me deu uma grande lição, pois entendi plenamente o que significa "Quem quer faz, quem não quer manda".<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>