Meu pai e o leite

“Oi pai, vim trazer o seu almoço”, era assim quase todos os dias. Ele dava uma risadinha e falava “vai ali na venda do Seu Manoel e pega um doce para você”, minha vontade era pegar um chocolate, mas chocolate era doce de gente rica, então só de vez em quando eu perguntava para o meu pai se podia pegar um e marcar na conta dele. O nome da firma era Estampotec, ficava na Rua Maria Cândida, na Vila Guilherme.

Era uma disputa, todos queriam levar almoço para o pai. Éramos em cinco crianças, meu pai ficava na porta da fábrica esperando a gente levar o almoço; depois podíamos pegar um doce. Ele também nos entregava, para levar para casa, o litro de leite que a firma dava para ele beber todos os dias, por causa dos produtos químicos. Ele embrulhava o leite em um jornal e a gente trazia escondido, pois a firma não podia saber. Ao invés do meu pai beber, ele dava o leite para nós, já como ele não tinha condições de comprar leite para cinco crianças.

Quando fecho os olhos sinto o cheiro daquele leite misturado com o cheiro da mão do meu pai…

Muitas vezes ele chegava em casa com várias coisas para nós e dizia que quem tinha mandado era o Seu Manoel, o dono da venda. Eram coisas de comer como leite em pó, manteiga ou roupas usadas. Para nós, ele era o melhor homem do mundo.

Não tínhamos televisão, então nós pedíamos para assisti-la na casa de um farmacêutico, um homem muito bondoso. Nós ficávamos no portão de casa vigiando quando ele chegava para pedir para assistir TV. Lembro muito bem que ele andava de terno marrom, chapéu e tinha na mão sempre uma maleta, que devia estar cheia de remédios, penso eu. Sentávamos no chão e ficávamos quietinhos assistindo. Era uma casa bonita e cheirosa, com móveis rústicos e madeira pura. Depois nos despedíamos e íamos para casa. No outro dia começava tudo de novo…

A época era difícil, quando não tínhamos calçados meu pai media nossos pés com um pedaço de plástico bem duro e recortava o molde do chinelo, amarrava com um barbante e assim cada um tinha o seu chinelinho. Era uma época na qual as pessoas que podiam compravam tamancos de madeira – e eu vivia sonhando em ter um tamanco daqueles.

O tempo passou, crescemos, meu pai, sempre bom e carinhoso com a gente, contraiu uma doença e o leite que ele não bebia e dava para a gente trazer escondido fez muita falta para o organismo dele, pois a doença dele era no estômago.

Só ficou a saudade de um tempo muito difícil, mas que foi compensado pelo amor que o meu pai tinha por nós. Quanta falta aquele leite fez na vida dele! O amor e saudade que tenho dele é muito grande, assim como as pessoas boas de São Paulo que fizeram parte da minha vida. Hoje ficam nas minhas saudades…

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