Frigorífico Santo Amaro: a saga da indústria pioneira de embutidos no Brasil

Alexandre Eder nasceu em 25 de maio de 1891, na cidade Hohenburg, na Alemanha, conhecida por seus monastérios beneditinos, de formação rígida no "orar e laborar" e responsáveis pela gastronomia local, conhecedores do "segredo" de embutidos e defumados além de idealizarem bons vinhos em videiras centenárias. Era uma grande escola para o jovem Alexandre Eder onde se tornou técnico em carnes, pesquisando e aprendendo sobre a industrialização de carnes e seus derivados.

Com o advento da Primeira Grande Guerra e as animosidades acirradas entre França e Alemanha, resolveu partir. Desembarcou em Pernambuco, no Brasil, em 1914, no inicio da Guerra Mundial como marinheiro em um navio com muitos imigrantes. Alexandre Eder acabou permanecendo algum tempo em Recife, onde para viver exerceu trabalho braçal, onde contava:
-"Cheguei a São Paulo em 1915, depois de ter passado por várias cidades do interior de Minas, Goiás, Mato Grosso, onde sempre procurei me dedicar à pecuária".

Em São Paulo existia grande colônia alemã, onde se adaptou com facilidade por sua personalidade e também pelos conhecimentos técnicos adquiridos em sua terra natal. Foi assim que durante a primeira guerra trabalhou em vários estabelecimentos como técnico na fabricação de frios e conservas, mas estava interessado em adquirir seu próprio negócio.

Pressentindo a formidável oportunidade neste campo ainda incipiente no Brasil, planificou as bases de seu sonho. Uniu-se a outro grande empreendedor, Max Satzke, também natural da Alemanha, nascido em 23 de abril de 1895, relação de amizade quando trabalhavam juntos no Frigorífico Continental, depois Wilson, onde decidiram constituir sociedade e trabalharem por conta própria, comprando o Frigorífico Schalfke, de Emma Schalfke, em Santo Amaro, onde residiam muitos imigrantes germânicos, descendentes dos primeiros colonos vindos para o Brasil em 1829 para o projeto do governo imperial instituindo a Colônia Paulista.

Foram estes os primeiros consumidores das salsichas, presuntos e frios produzidos pelos sócios, com a mesma técnica e padrão de qualidade que havia na terra de seus ancestrais, e depois também conquistaram a população local, de várias etnias, com o padrão de qualidade e diversificação de produtos.

Em 1 de junho de 1923, Alexandre Eder e Max Satzke adotaram a razão social "Alexandre Eder & Cia – Frigorífico Santo Amaro" e se esforçaram para ampliar o negócio, adquirindo outras propriedades para ampliar a nova fábrica no Município de Santo Amaro, que nesta época possuía reduzido número de empreendimentos industriais, iniciando as atividades neste pequeno frigorífico, instalado na Rua Isabel Schmidt, depois ampliado até a esquina da Avenida Adolfo Pinheiro. Era considerada temeridade, pois à época o mercado não era abrangente e ainda não oferecia interesse de pessoas empreendedoras neste seguimento da indústria de frios, um campo a ser conquistado. Na época, os grandes frigoríficos instaladas na capital eram a Swift do Brasil, a Armour e o Frigorífico Matarazzo, precursores neste setor, mas em outros segmentos.

A visão destes dois homens foi marcante no desenvolvimento industrial da organização que se processou paralelamente ao crescimento industrial de Santo Amaro, iniciando com apenas três funcionários, cada qual com sua máquina e para as encomendas serem distribuídas: "Uma carroça e um cavalo lindo".

A profunda significação da marca estava estampada em muitos estabelecimentos do segmento de embutidos: "Temos produtos do Frigorífico Santo Amaro". Esse slogan determinava a preferência do consumidor pela excelência dos produtos que incluía frios cozidos e defumados, salames, presunto, salsichas Viena e salsichões Schubling e Nürenberg, mortadelas que deixavam o frigorífico todos os dias. Houve uma tentativa de verticalizar a produção na década de 1950, adquirindo uma fazenda no interior do Estado de São Paulo, onde foram introduzidas no Brasil, as primeiras matrizes de porcos brancos vindos da Alemanha, de carne mais tenra e com menos gordura, ideal para o lombo e pernil, mas as dificuldades operacionais levaram a idéia a ser arquivada para uma retomada posterior.

Com o advento da televisão o Frigorífico Santo Amaro criou propaganda rápida que era um slogan que marcou época em anúncios de produtos, onde em um desenho animado apreciava-se a conversa entre um boizinho e um porquinho:
– "O que você vai ser quando crescer?".
– "Salsichas, ué, mas só se for do Frigor Eder Santo Amaro!".

O frigorífico usava no inicio das atividades as dependências do Matadouro Municipal de Santo Amaro, nas imediações da Praça Oswaldo Cruz, (atualmente denominada Praça Andrea Doria) com fachada para a Rua Borba Gato.

O gado era transportado para o matadouro, que muitas vezes se espalhava por algum descuido e a manada invadia casas ou algum desgarrado perdi-se no meio do mato. Assim para que houvesse um melhor planejamento, e Santo Amaro desativando as instalações de seu matadouro, o Frigorífico Eder resolveu ampliar suas instalações adquirindo terras para constituir a Fazenda Santa Gertrudes, com 118 alqueires, próximo ao Jardim Campestre e instalando um matadouro próprio no quilometro 26 da Estrada de Itapecerica da Serra, inaugurado no ano de 1964 com a presença de autoridades locais.

Antes a mercadoria era transportada em carroça até a estação dos bondes de carga de Santo Amaro que transportava para a Praça da Sé, onde outra carroça transportava os produtos e os derivados para serem comercializados no Mercado Municipal Central, com feirantes e na tradicional Casa Godinho, inaugurada em 1888, anteriormente na Praça de Sé e depois na Libero Badaró, reconhecida ao longo dos anos pela diversidade e excelência de seus
produtos.

Alexandre Eder e Max Satzke possuíam espírito empreendedor e dedicação e assim transformaram a iniciativa em uma florescente indústria que muitos serviços prestaram a Santo Amaro. Desenvolveram sábia política de entendimento com os empregados da organização, mantendo o bem estar de seus colaboradores. Alexandre Eder foi agraciado com o título de cidadão paulistano pela Câmara Municipal de São Paulo concedido em homenagem aos relevantes serviços prestados a cidade, pelo espírito de arrojo empreendedor, em 16 de junho de 1963, o exemplo de tenacidade e de confiança no futuro. Estes homens fizeram o que sonharam e partiram com o dever cumprido, Max em 10 de julho de 1973 e Alexandre em 16 de dezembro de 1979.

O Frigorífico Santo Amaro, após os seus idealizadores, continuou a sua produção que já chegava perto de 30 toneladas de frios por dia sendo que a salsicha, que representava 70 % da produção era o "carro chefe" da empresa, o produto mais vendido, principalmente a granel em muitos estados do Brasil.

A indústria empregava na década de 1980 um contingente de 650 pessoas, da área administrativa e de produção, com um capital social de três bilhões de cruzeiros, um aporte respeitável à época. A família assumiu todo o complexo onde passou a ser dirigida por João Eder, Alexandre Satzke, Alexandre Eder Neto, João José Eder e Eduardo de barros Satzke, do patrimônio onde a fábrica em Santo Amaro, na Rua Isabel Schmidt, possuía maior significação, onde tudo se iniciou em terreno de aproximadamente 10 mil metros quadrados e com área construída de 13 mil metros quadrados, um matadouro em Itapecerica da Serra, onde eram abatidos 400 suínos por dia. Os porcos vinham de criadores da região sul do país e possuíam representações em vários locais do Brasil.

Naquele momento a produção era o para mercado interno, mas havia interesse em entrar em outros países, ávidos por produtos com grande qualidade. Aliás, o que não faltava a organização, fato que necessitava a ampliação das instalações para permitir inclusive barateamento de custos. Os tempos eram outros, e expandir obrigava entrar em novos investimentos financeiros o que deu aos grupos de investidores a posse de um patrimônio ofertado em hipoteca; assim parte deste patrimônio do Frigorífico Santo Amaro passou para os bancos e em 1990 e o restante foi vendido para o grupo Bolsa Nacional de Empresas.

Em 1998, o frigorífico Eder Santo Amaro passou a ser administrado por novos proprietários, após completar "bodas de brilhante de existência" não mais brilhava no panorama do local que lhe inspirou o nome como Frigorífico Santo Amaro.

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