Um dia desses, um colega de trabalho, bem mais novo que eu, me confessou:
– “’Pô’, Eduardo, sabe que eu te invejo?”.
– “Huuuum, por quê?”, retruquei, já achando que fosse alguma malandragem.
-“É que você viveu numa época maravilhosa da vida: Beatles, Bossa Nova, ditadura; tanta gente especial: Vinicius, Caetano, Mutantes, Woodstock, Rolling Stones e tantos outros. É difícil entender como que tanta gente boa estava junto e fazendo sucesso ao mesmo tempo, quando não havia os MP3, Ipod’s ou outras parafernálias eletrônicas onde você busca a sua música num aparelho de telefone que há poucas horas foi lançada no outro lado do planeta, junto com a noticia que uma jovem cantora de Rock que morreu de tanto beber”
– “É, eu disse, de fato foi uma época em que os sessentões de hoje sempre vão ter um sorriso maroto no rosto ao relembrá-la e nada do que acontece hoje nos causa espanto. E contei-lhe uma passagem nossa da época do ginásio, a qual segue abaixo”.
Teve uma época no Firmino de Proença, colégio palco de muitas das minhas histórias daqui do SPMC, que se fazia uma semana só de entretenimentos, artes, jogos entre classes, para promover o interesse interno dos alunos. Era muito bom, pois realmente provocava uma grande interação de classes dos três períodos. Creio que era a semana do aluno, em outubro, ou algo assim.
Para variar, o Ovo, eu, o Solé e algumas meninas da nossa gloriosa 4ª série B inventamos, juntamente com o Álvaro, de fazer uma peça simulando um programa que havia na TV, exibido na Record, chamado Alianças para o Sucesso comandado pelo saudoso casal Blota Junior e Branca Ribeiro.
Se lembrarem, o programa consistia em chamar três casais para separadamente, mulheres e maridos, responderem perguntas pessoais e depois confrontar se as respostas batiam. Ganhava o casal mais afinado. Era divertido, pois trazia casais famosos do meio artístico e tinha uma boa audiência para a época.
E montamos o nosso elenco: o Álvaro autor e diretor da nossa peça/paródia e a Ivone faziam o casal Blota e Branca. O Álvaro fazia teatro e tinha boa dicção e a Ivone, a loira que representava a sua mulher era ajudante no palco na contagem da pontuação. E os três casais: o Solé, do alto do seu um metro e meio fazia o casal paranóico com a Sueli Nieto, nossa grande colega de 1 metro e oitenta e cinco, quase noventa. Ela era muito alta para os padrões da época e infalível jogadora do time feminino de handball da nossa classe. Eu com a Sonia, uma linda morena da minha altura interpretando o papel de uma mulher sofisticadíssima e fina. Um à parte: a Sonia era uma "colegaça" não só pela simpatia, mas também pela sua alegria contagiante. Como disse, ela fazia par comigo que imitava um costureiro famoso. E encerrando, o Ovo, meu amigo de 1,90 m com a Juçara Russomano, a Tuca, de menos de 1,50m, fazendo o papel de um barulhento casal de caipiras. Som, luzes, vestuário tudo bem arranjado e, é claro, muito improvisado pelos poucos recursos da escola na época, começou a peça.
Cada casal que entrava no palco era uma gargalhada geral pelo claro contraste dos personagens e do figurino exagerado. O Álvaro por sua vez, sobriamente cobrindo o riso, controlava a cena sem demonstrar a sua alegria em ver a reação da plateia. E começa o jogo todo muito bem ensaiado com a vinheta do programa e tudo mais.
A cada pergunta uma resposta certa e outra completamente atravessada para justamente atingir o objetivo cômico da peça, extremamente hilária. Juntava-se a isso, o não proposital erro da Ivone em marcar os pontos num placar onde, de improviso, um casal reclamava que tinha mais pontos que o outro e vice-versa. Discussão, bate boca, quebra-quebra no palco tudo, é claro, devidamente cuidadoso dentro do espírito da apresentação.
O Solé, não contente, reclamava uma vez e apanhava outras quatro da esposa que cobrava dele uma atitude mais dura. O Ovo e a Tuca, apesar de serem caipiras, eram unidos davam respostas certas, porém grosseiras, que faziam a plateia rachar de tanto rir. A Sonia e eu não acertávamos uma sequer, mas como tínhamos o papel de um casal elegante e fino fazíamos a cena de horrorizados com tamanha grosseria… E assim foi seguindo a apresentação.
Outro fato que me ocorreu nesse momento foi o meu improviso, com trejeitos típicos do meu papel, a simulação de um choque do microfone que eu usava , provocando microfonia nos aparelhos de som. Veio bem a calhar e ficou divertido.
A nossa diretora, Dona Helena, e vários professores estavam presentes e completaram os aplausos. Gostaram tanto que nos cobraram para refazer a apresentação no período da tarde, que era só de meninas.
Usamos o mesmo palco e o mesmo tempo para a apresentação e foi outro sucesso. Foi um grande momento de euforia e realização. Eu nunca tinha feito algo semelhante e ver uma plateia rir de cada palavra e gesto do elenco foi sem duvida maravilhoso. É difícil esquecer. Imagino como deve ser para os artistas de carreira.
Passaram-se umas duas semanas e veio o comunicado: "Vocês vão ter que apresentar a mesma peça, na TV Excelsior, canal 9, num programa comandado por um apresentador (Horácio Lima – eu acho) chamado Gincana dos Colégios!" O programa, que era ao vivo no Teatro Cultura Artística, na Rua Nestor Pestana, de domingo à tarde, tinha uma boa audiência, embora a emissora já se aproximasse do fim, podia ajudar a promover o colégio, um desejo do nosso corpo docente.
Tremedeira geral…
– “Na televisão? Nós?”, nunca havia nos passado isso pela cabeça!
Respiramos fundo e lá fomos com o tempo reduzido para menos de um terço, apresentarmos a nossa simples e divertida peça. Como era um numero de "teatro" que compunha uma das tarefas da gincana, acabou somando pontos para um total geral e colocando o Firmino numa posição melhor. Não vencemos, mas valeu por permitir-nos entrar num mundo completamente novo e diferente que era o de trás de uma câmera de TV. Isso sim foi o que mais valor agregou ao episódio.
Entendemos melhor depois, quando vimos que essa apresentação foi prejudicada pelo fato de ser uma paródia de um programa de uma emissora concorrente. Depois disso, o Álvaro se empolgou tanto que chamou "os atores" para ensaiar, lá no SESC da Rua do Carmo, outra peça que ele tinha escrito. Só que esta era bem mais séria. Era uma espécie de entrevista com jovens adolescentes contando seus problemas e desvios de conduta, muito típicos da época, anos 60, em que a liberdade mesclada com rebeldia era vigiada de perto e que, também pelo tema, não conseguimos espaço para apresentar. Mas foi uma boa experiência.
Terminar uma crônica é sempre difícil porque eu quero deixar um gostinho de quero mais. Mas termino dizendo que não param por aí as minhas passagens de ginásio, época áurea da minha vida, da do Ovo, da do Solé, da do Terrinha, da do Gilberto Penteado, da do Abreu e da vida de todas as meninas do nosso bom, velho e saudoso Instituto Estadual de Educação Professor Antônio Firmino de Proença. Os colegas que lerem estas crônicas vão relembrar essa época sensacional e inocente, embora reprimida pelo governo militar, de uma juventude barulhenta, mas sadia e desse tempo de ginásio, tão lembrado neste site.
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