Em 2011, misturando sentimentos de emoção e saudade, acompanhei com redobrada atenção, no Jornal da TV Bandeirantes, a reportagem especial acerca dos cem anos de Adoniran Barbosa, o poeta da garoa, aquele que retratou como ninguém a face de São Paulo.
Cronista do dialeto único e impossível da Zona Leste paulistana, dialeto que só "nóis falemo" e "dindindonde" vivi momentos felizes. Zona Leste capaz de criar tipos marcantes como: Tatalé, Tujunto e Pichinim, apelidos que apenas lá poderiam ser criados e que não guardavam nenhuma relação com os nomes de seus proprietários, nomes estes, aliás, que nunca vim a saber.
Adoniram Barbosa que com sua sensibilidade criou canções como Iracema, aquela que "travessou contramão"; do Trem das Onze, que deixava insone sua pobre mãe; da Saudosa Maloca, que Elis Regina interpretou de maneira única e magistral e que eu, infelizmente, perdi a cópia que possuía. Adoniran que fez calar Vinícius de Moraes com sua infeliz frase de que São Paulo seria "o túmulo do samba".
Reportagem que me emocionou ao recordar do Brás antigo de minha infância e juventude, "donde" vivi intensamente mesmo sem haver conhecido o "Arnesto" Brás das "concettas", sentadas às soleiras das casas, falando da vida de todos: “Aquela ali, parece uma chiveta, sai com tudo quanto é hômi”.
Do Brás das Lojas Pirani, de vendedoras graciosas e cobiçadas pelos jovens locais, gigante precursora dos Shoppings Centers modernos; dos bailes no Clube Independência na Rua Carlos Botelho; da pizzaria Castelões, a mais antiga da cidade, ao lado da igreja do Brás; da Cantina Balilla na Rua do Gasômetro, a predileta da torcida do Palmeiras; do Boliche 1040 na Rangel Pestana, ao lado do cine Piratininga, a maior casa de espetáculos do Brasil àquela época.
Do Brás da pizza comida aos pedaços no balcão da padaria da Rua 21 de Abril, ou da Santa Cruz, do café Tiradentes, do pastel de vento com caldo de cana, ou "garapa", como chamávamos, ou no lanche sofisticado na Garoto, a primeira lanchonete com cadeiras pregadas ao balcão que conheci.
Mais do que apenas o Brás, a série de reportagens me reportou a uma São Paulo menos opulenta, mas muito mais humana, muito mais paulistana. São Paulo dos cines Art Palácio, Paissandu, Marrocos, Ipiranga, República e como esquecer da enorme emoção que foi assistir "Aventuras nos Mares do Sul", pela primeira vez em cinerama, no Cine Comodoro, na Avenida São João.
Avenida São João da birosca do melhor mate gelado com limão que já bebi e cuja esquina com a Ipiranga foi tão bem cantada pelo baiano Caetano, apesar de poder apostar que ele jamais por lá rolou "dadinhos', nem jogou bilhar em uma "Ronda" solitária. Esquina marcada e demarcada pelo prédio do City Bank em frente ao bar Brahma.
Do Avenida Dancing e suas damas de aluguel por uma música. Do Som de Cristal, casa de danças e gafieira de classe, onde só se entrava de paletó e gravata. Dos Festivais da Record no teatro Consolação ao lado da loja de Lustres Bobadilha, de tantas canções históricas como: A Banda, Disparada, Ponteio e até de Beto Bom de Bola e o violão quebrado de Sergio Ricardo, inconformado com as vaias, não sendo capaz de compreender que a garotada não estava vaiando a ele ou sua música, mas que o ato de vaiar era uma forma de expressão.
Dos bailes de formatura nos salões do Aeroporto, do Pinheiros, da Casa de Portugal, com todos os jovens alinhados em seus smokings ao lado de seus pares, todas lindas de vestidos longos dançando ao som da orquestra do maestro Pocho, ou de José Arruda Paes Coral e Cordas. Dos sábados dançantes no Círculo Militar, com os Bubbles ou o Brazilian Tropical Quintet.
Uma São Paulo pouco violenta, com marginais românticos como Meneghetti que ganhou fama ao ter seus feitos noticiados pela imprensa – de forma muitas vezes sensacionalista – chegando ao ponto de ser taxado pelos jornais de "o bom ladrão", ou de Promessinha, que com menos de 20 anos já era famoso por haver realizado "mais de 40 assaltos, mas sem nunca ferir ninguém". Marginais que eram perseguidos pelas saudosas patrulhinhas preto e brancas da respeitosa e respeitável guarda civil.
Uma cidade e um tempo onde o fabuloso Santos jogava quarta-feira à tarde contra o Juventus, na Rua Javari, da pizzaria São Pedro, onde Pelé marcou seu mais belo gol assistido por uma ínfima platéia, em um jogo tão sem importância, que nem registro cinematográfico possui.
Enfim de uma São Paulo que não existe mais, cidade que deixei, sem remorsos, há muito, muito tempo.
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