Bom Retiro – duas fases de minha vida

No caminho de nossas vidas passamos por fases mais ou menos importantes e em geral as associamos com lugares. Das diferentes fases da minha vida, duas muito importantes foram cumpridas no velho bairro do Bom Retiro.

Em meados do ano de 1930, morávamos na Rua General Osório, 248, meus pais e eu. Com frequência minha mãe e eu saiamos de casa e caminhávamos até a Rua Santa Ifigênia, atravessávamos a Rua Duque de Caxias, passávamos em frente à Estação Sorocabanos e pela Rua Dino Bueno; passávamos ao lado do Largo Coração de Jesus e pelo Colégio Coração de Jesus onde mais tarde iria estudar; em seguida entravamos pela Rua Silva Pinto, logo após passarmos sob o viaduto da linha férrea, seguíamos pela Rua Anhaia até o número 90.

Era uma casa com uma ampla janela central e sob ela uma abertura retangular fechada com grade, típico das casas com porão. Ao entrarmos na casa, devido ao tal porão, subíamos cerca de seis ou sete degraus. Percorríamos um longo corredor que ia dar numa sala ampla que levava à cozinha e uma porta à sua esquerda conduzia a um enorme quintal com muitas árvores.

O motivo da visita ficava no dormitório da frente, meu avô, um homem muito velho sempre sentado em uma cadeira. Lembro-me bem de sua vasta barba toda branca. Devia estar muito doente, pois exalava, lembro-me bem um cheiro que mais tarde identifiquei como uréia, talvez mesclado com cheiro de medicamentos. Seu estado se confirmou mais tarde, pois após pouco tempo nunca mais voltamos àquela casa e minhas tias e minha mãe passaram a usar vestido preto.

Muitos anos depois, no final da década de 50, eu morava na Avenida Rio Branco, 728 – no primeiro andar de um prédio. Fomos, dois amigos e eu, passar férias na Cidade Ocian e resolvemos ir, como se dizia, pular o carnaval no Ocian Praia Clube. Nesse dia conheci aquela que seria minha esposa; por motivo da tal coincidência, ela morava no bairro do Bom Retiro. Durante o namoro e noivado, por inúmeras vezes fui a pé até sua casa. Para tanto fazia um caminho semelhante ao de tempos atrás. Saia de minha casa na Avenida Rio Branco, cruzava a agora Avenida Duque de Caxias, passava pela Praça Princesa Isabel, depois entrava pela Rua Dino Bueno, Silva Pinto, passava sob o viaduto da via férrea e daí, Rua Anhaia, só que agora no número 455, casa dois, numa vila.

Na década de 60 nos casamos e, para comodidade de ambos – para ela, por ficar próximo da mãe e para mim por trabalhar na Rua Três Rios na Faculdade de Farmácia e Odontologia – fomos morar no mesmo bairro na Rua General Flores, 126 – no primeiro andar de um pequeno prédio.

Na Maternidade São Paulo nasceram nossas duas filhas que tiveram seus primeiros contatos escolares no excelente Externato Santo Eduardo também situado na General Flores, dirigido pela competente professora Dona Esmeralda. Vivemos no bairro até o início da década de 1970.

Esta historinha teve a participação de lembranças de minhas filhas e teria mais detalhes, com certeza, se a mãe delas ainda estivesse entre nós. Bons tempos. Belas recordações e benditas coincidências.

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