O ato involuntário de "perder-se" é uma instituição paulistana. Mais até do que a pizza ou o cafezinho depois do almoço.<br><br>Há "perdidos" de todos os tipos, formas e tamanhos nesta Pauliceia impossível de se medir em quilômetros.<br><br>Suspeito até que a fama creditada às cantinas italianas do Bixiga seja em razão de nossa habilidade em perder-se pelas ruas nada planejadas (graças a Deus) da cidade. Acontece mais ou menos assim: aquele conhecido ou familiar lhe dá a dica de uma cantina espetacular no tradicional bairro italiano. E além de tudo, para chegar é facílimo. Basta seguir pela Rua 13 de maio, passar o viaduto, entrar a direita, depois à esquerda e sentar para esperar o macarrão.<br><br>Nunca dá certo. O viaduto descamba em uma realidade alternativa, a rua que era para entrar à direita é contramão, o que provoca verdadeira reação em cadeia, contaminando com tal característica todas as demais ruas paralelas.<br><br>Quando você assume que se perdeu, já é tarde. Já está quase extrapolando os limites bixiguentos e resolve voltar. Pergunta ao taxista, que assume um notável ar de superioridade e lhe informa tudo pela metade. Andando em círculos, você só se dá conta disso ao visualizar pela décima vez a mesma banca de jornal azul bloqueando a entrada de uma cantina. Curioso, justamente da cantina do… Putz… Achei!<br><br>Após tal epopéia, qualquer macarrãozinho, temperado com fome e cansaço, é dos céus.<br><br>Como eu dizia, há "perdidos" de todos os tipos. Há o "perdido profissional". Esse rejeita, até sob tortura (em geral, da própria mulher) perguntar para algum transeunte. Taxista então, ele abomina! Sua tática resume-se a rodar até encontrar uma rua conhecida. Sentimental não? Quase nunca dá certo e acaba voltando para casa. Afinal, "meu" bairro tem de tudo, afirma resoluto.<br><br>Mas se o "perdido profissional" é interessante, mais ainda é o "profissional perdido". Certa vez, peguei um táxi no Terminal Tietê até o Ipiranga. O inábil motorista começou me perguntando como retornava. Depois que rua deveria pegar:<br>- “Que tal a Avenida do Estado?”.<br>- “E depois, qual?” <br>- “A Dom Pedro, pela pista da direita”.<br>- “E depois?” <br>- “Avenida Nazaré”.<br><br>Finalmente chegamos. Ele parecia querer perguntar alguma coisa.<br>- “Quer que espere?” <br>- “Não”.<br>- “Não? Mas como eu faço para voltar?” <br>- “Só pegar à direita na Bom Pastor”.<br>- “Rua Bom Pastor? Não conheço…”.<br><br>Há também o "perdido orgulhoso", que não admite desconhecer a cidade. Já aconteceu com você, caro leitor. Veja:<br><br>Você recebe um telefonema de um antigo amigo de fora, que quer conhecer São Paulo. Já vai planejando o roteiro: Centrão, Avenida Paulista, Parque do Ibirapuera. Mais clássico impossível. Mas tão logo o cara chega, já vai logo pedindo:<br>- “Tem como você me levar em uma loja, em tal de… (Cita um bairro que você só conhece de nome, lá no extremo leste da cidade).<br><br>E você, orgulhoso, não quer mostrar desconhecimento:<br>- “Claro, vamos lá”.<br><br>Quando vê que se perdeu, inapelavelmente, começa disfarçar. Vira à direita com uma segurança impressionante. Depois, novamente à direita, conversando sobre futebol.<br> – “Longe não?" – questiona o amigo forasteiro.<br>- "Aqui em São Paulo tudo é longe" – você responde.<br><br>Nesta hora, você tem uma brilhante ideia: ir até o trabalho e de lá tentar chegar ao endereço. Passa o dia no trânsito e o amigo volta para a cidade de origem com uma péssima impressão da metrópole que você conhece como ninguém.<br><br>Há situações ainda mais curiosas, uma já aconteceu comigo: queria ir a uma exposição em um instituto cultural de um finado banco. Achá-lo não foi difícil, ao que de imediato passei a peregrinar em busca de uma vaga. Achada esta, após longa e exaustiva procura, perdi o prédio de vista. Os adeptos do bairrismo, por sua vez, costumam dar informações bastante precisas:<br>- “Essa rua que você procura é aquela da padaria do Mário, sabe?” <br>- “Não”.<br>- “E a papelaria do Alfredo?” <br><br>Há outro tipo notável, o perdido propriamente dito. Eu cruzava a Praça do Patriarca quando fui abordado:<br>- “Onde fica a Rua 24 de maio?” <br>- “É aquela da galeria do rock… Ali, atrás do Theatro Municipal”.<br>- “Não conheço”.<br>- “Ali, na Praça Ramos, perto do Shopping Light”.<br>- “Nunca ouvi falar”.<br><br>Por incrível coincidência eu estava prestes a atravessar o Viaduto. Orientei que me seguisse.<br><br>Aliás, algo que é realmente impressionante é como sempre sou eu o eleito, na multidão, para dar informação. Incrível como as pessoas confiam em mim! Uma vez dei informação, de dentro do carro, a um motorista carioca que queria acessar a Marginal. Aos berros, por cima do corredor de motos, projetando a voz:<br>- “Pega à direita…”.<br><br>A propósito, no Rio dou informação até para os nativos. Eles confiam nas minhas dicas mesmo notando que não possuo o inconfundível sotaque carioca. Uma vez informei, corretamente diga-se de passagem, como ir do Centro à Tijuca, de ônibus. Basta pegar o 229 na Rua Almirante Barroso. Loucura, não?<br><br>Loucura mesmo é um aparelhinho metido a besta querendo acabar com a festa. Com sua voz metálica e insensível, pretende resolver definitivamente a questão. Mas mesmo com a ajuda de um satélite que tudo vê, acaba muitas vezes informando errado.<br><br>Reprogramando a rota…<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>