Vila Formosa querida

Esta história começa pelo ano de 1950, quando meu pai comprou uma casinha velha na Rua 65 (depois Rua Iru) e nos mudamos da Água Rasa para a Vila Formosa então subdistrito do Tatuapé. Tratava-se de um bairro distante, onde afloravam os matagais, dos quais o famoso “Matão da Paula Sousa” era o mais conhecido, justamente no local onde hoje abriga o luxuoso Shopping Anália Franco e o Carrefour.

Próximo deste local, havia um lago de águas barrentas onde a molecada se juntava para nadar, e do outro lado da estradinha (era assim que chamávamos a Avenida Regente Feijó na confluência com a Avenida Doutor Eduardo Cotching, que ligava a Água Rasa à vila, próximo do Educandário Lar Anália Franco, hoje Faculdade Unicsul) havia um lixão onde era depositado o lixo do bairro. Naquela época o lixo era colocado pelos moradores em uma lata de 18 l e reforçada com madeira na boca para facilitar o recolhimento pelos lixeiros e colocados numa caçamba de aço que tinha mais ou menos 4 m de comprimento por 1,80 de largura, sendo ovalada na parte de cima, cujas tampas os lixeiros movimentavam por manualmente.

A caçamba era puxada por uma parelha de quatro ou seis muares. O odor dos animais e do lixo recolhido a céu aberto era intenso, mas a população já estava acostumada com este "modus operandi". Havia muito barro durante as chuvas, que obrigava as pessoas ao uso de galochas para proteger o sapato, e também muita poeira na estiagem, calçamento nem pensar, somente uma tira de asfalto na linha de ônibus que ligava o Largo São José do Belém passando pelas avenidas Álvaro Ramos, Regente Feijó, Doutor Eduardo Cotching até a Praça Sampaio Vidal, onde a Viação Cometa fazia seu ponto final. Cada ponto tinha uma referência: “A casa do Engenheiro”, ”a vendinha”.

O grande ícone de Vila Formosa, era a igreja de Nossa Senhora do Sagrado Coração, famosa com seus 47 sinos importados da Europa que tocavam em horários das missas, ministradas a maioria pelos padres holandeses: Francisco, Alberto, Baptista, Cornelius (que realizou meu casamento) Ricardo Paglia (hoje bispo de uma diocese no nordeste), Amadeu (diretor do Seminário dos Padres, como era chamado), e outros missionários e educadores que fizeram a grandeza do bairro.

O maior espetáculo religioso que presenciei, foi a coroação de Nossa Senhora do Sagrado Coração, ocorrida na década de 50, pelo Cardeal Motta, Arcebispo de São Paulo e autoridades eclesiásticas vindas do próprio Vaticano.

Mas a vila, mercê de muito trabalho operante, cresceu, e por decreto do Governador Janio Quadros, foi instalado no bairro o Ginásio Estadual de Vila Formosa, que mais tarde receberia o nome de Ginásio Estadual Professor José Marques da Cruz, onde tive a honra de me formar na primeira turma de ginasianos, em 1960, onde 33 alunos remanescentes de uma turma maior iniciaram e terminaram o curso ginasial.

Na área esportiva, como não poderia deixar de ser, havia "rixa" entre os times do bairro com os adversários, sendo que marcou época como o melhor de todos os tempos, o Grupo Escolar Americano e seu timaço cuja escalação todo garoto sabia na ponta da língua: Soneca, Walter e Afonso, Chú, Nego e Arlindo, Cabinho, Mião, Vadinho, Tiãozinho e Plínio. Formaram ainda neste timaço, o goleiro Ricardo, o Beco, o Martin Alemão, o Nenê (hoje comerciante do bairro), e o Alair, até onde a memória me ajuda, lembro-me de outros bons times como o Flor de Vila Formosa, do União Vila Formosa, do Paraguassu, do Radinho no final da Avenida Guilherme Giorgi. A maioria dos campos era no terrão mesmo, ou mato rasteiro, pois grama não havia.

Nos festivais futebolísticos, a Vila se engalanava com os times estreando e exibindo impecável fardamento (nota: não havia patrocinador).

Lembramo-nos ainda do gigantesco cemitério de Vila Formosa, onde queridos amigos e parentes foram sepultados.
Muitos comerciantes que fizeram a grandeza do Bairro pelo seu incessante trabalho devem ser lembrados, no ramo farmacêutico, O Mendrot, da farmácia paulistinha, o Georgino da farmácia triângulo (o primeiro Juiz de Paz de Vila Formosa), o Francisco Roquetti da Farmácia Formosa, o Mário Garbi, e outros. No ramo de padaria, lembramo-nos do senhor Manuel José, e de seu sócio Raphael Ranieri da Panificadora Ideal. Muitos profissionais liberais e empresários poderiam ser citados, mas correríamos o risco de omitir algum benfeitor da vila.

Na política o Bairro produziu um vereador de vários mandatos, Emílio Meneghini, que muito trabalhou pela vila, e da mesma forma um Deputado Estadual o dentista Orlando Iazzetti, cujo trabalho elevou a vila à categoria de distrito, desmembrando-se do Tatuapé.

Não poderíamos deixar de mencionar a inauguração do ônibus elétrico com ponto final no Largo da Igreja pelo Prefeito Faria Lima pouco antes da realização de uma eleição, solenidade presidida pelo Vereador Emílio Meneghini, com direito à fogos, discursos e banda de música acontecida na década de 1960.

O bairro teve um grande crescimento, assim como um todo de nossa cidade perdendo um pouco de seu charme, mas que a lembrança fica… Ah! Isto não fenece jamais dos nossos corações.

Ah! Ia me esquecendo… Que maravilha os bailes da Sociedade Amigos de Vila Formosa. Era uma competição doida, bolero figurado, chá, chá, chá, rock soltinho, e outras mais. Mas isto já é outra história.

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