Estação do Brás

Acho que o ano era 1957, eu tinha 16 anos quando resolvi sair da minha pequena cidade natal – Monte Azul Paulista – e ir morar em São Paulo, na casa de uma prima, lá na Penha. Todas as madrugadas eu pegava o trem até a estação do Brás (trabalhava em uma fábrica de fitas). Era um período muito agitado, com muitas greves. Se a ida para o trabalho tinha hora certa para acontecer, a volta nunca se sabia como seria, pois podiamos ter que enfrentar greve dos trens.

Muitas vezes tínhamos que ficar do lado aguardando que nossos irmãos nordestinos, que chegavam em grande número, descessem das composições. Fiquei pouco tempo em São Paulo por que minha principal intenção quando prá lá me mudei era poder estudar à noite e isso eu não pude fazer. Naqueles tempos não é como agora que temos muitas escolas.

Embora tenha ficado poucos meses em São Paulo, guardo na minha memória muitas coisas que me aconteceram naquele período. Principalmente um acontecimento ficou gravado com muito carinho. Uma tarde saimos do serviço (minha prima e eu) e nos dirigimos para a Estação. Para variar, estava chovendo e os trens todos parados – era uma greve. Acho que foi logo que lá cheguei porque ao chegar à estação descobri que só tinha o "passe" para o trem – não tinha levado dinheiro (nem eu, marinheira de primeira viagem, e nem a prima que era mais experiente que eu). Aí ficamos como duas baratas tontas no meio da multidão. Ela me perguntava o que iamos fazer sem dinheiro e sem o trem para voltar prá casa.

A estação estava lotada. Na minha ingenuidade de menina interiorana, disse para ela que tínhamos que pedir dinheiro emprestado para alguém. Mas para quem? Olhei ao meu redor e ví uma mulher que aos meus olhos de 17 anos, era uma velhinha. Ela estava encolhida num canto da estação. Parece que a estou vendo ainda hoje. Era magrinha, usava uma capa de chuva. Falei para a prima que ia pedir dinheiro emprestado para aquela senhora.

Cheguei perto dela e contei a nossa situação. Ela me deu o dinheiro de que necessitavamos. Peguei o dinheiro, olhei bem prá ela e disse como se estivesse falando com alguém lá da minha Monte Azul Paulista:
– “Olha, quando eu encontrar a senhora eu devolvo o dinheiro, viu?”.

Só podia partir de uma menina do interior dizer isso para alguém em São Paulo. Pois bem, algum tempo depois, não me lembro quanto tempo, saímos do trabalho e… Chuva, estação do Brás lotada, trens parados, tumulto… Mas agora a "tontinha" tinha dinheiro de reserva além do passe. E sabem o que aconteceu? No meio daquela gentarada toda, quem eu encontro na estação? A boa senhora que nos havia tirado do sufoco. Fui falar com ela:
– “Foi a senhora quem me emprestou dinheiro outro dia, se lembra? Então, aqui está o seu dinheiro de volta”.

E ela me disse:
– “Hoje quem está sem dinheiro sou eu”.

Às vezes penso se aquela mulher existiu mesmo ou foi um dos anjos que já passaram pela minha vida.

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