Minha amiga portuguesa

Eu tive uma grande amiga por 20 anos. Ela esteve ao lado da minha família e ajudou a cuidar de minha mãe. Era uma pessoa especial!

Quando me mudei do Ipiranga para o Jardim da Saúde na Rua Tuiucue, no ano de 1970, eu a conheci e não fazia muitos anos que tinha vindo de Portugal. Eu não conheço Portugal, mas eu já passei por lá com minha imaginação, com relatos da Lucinda, querida amiga sempre a me contar de sua terra.

Da minha janela eu via a feira de Belém passando pelas calçadas, cabras, carneiros, desde simples camponesas até as mais nobres alçadas. Das vestimentas tradicional, de lenços aventais, ouros, e da dança do “vira, vira”, que não podia faltar. Quando ela me contava, sentia sua alegria, falava de coisas tão belas e eu, atenta, as ouvia sobre os pescadores na praia, as raparigas nas oliveiras, as uvas nas parreiras e o famoso vinho do porto, que levantava até morto. Fazia lá suas brincadeiras… Contava também da criação de coelhos que tinha com a sua avó, que falava tão zangada quando ela não os alimentava e corrias a brincar.

Às vezes desanimada eu estava a reclamar e ela, com tua alegria, alegrava meu dia, cantávamos juntas as mais alegres canções, desde o fado perseguição até a casa portuguesa, que deixou por lá.

Não posso esquecer-me dos bolinhos de bacalhau e o bacalhau a Mendes de Sá, que só ela sabia preparar, do camafeu que sempre trazia consigo prendendo o decote do vestido, lembrança do seu av. Um dia, sem esperar, o prendeste no meu peito e disse:
– “Eu não daria a uma irmã, mas para ti. Quero que o aceites! Não é um caro presente, mas é para ti, minha grande amiga, pois trocamos alegrias e sofrimentos e fizeste por merecer.”

Lucinda, grande amiga, quantas trocas e recordações, que eu me recordo ainda. Por tudo que trocamos quero homenagear-te a ti e o grande Camões.

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