"Coisas de criança"

Ah!Como era gostoso chegar a minha casa após a escola, tirar aquele uniforme surrado, mas impecavelmente pronto para o dia seguinte. As crianças não tinham nada de extraordinário que as distinguissem das outras.Andávamos com roupas simples,quase sempre descalços, mas uma coisa nos diferenciava das crianças de hoje: a educação.

A escola em que estudava era a E.E.João Vieira de Almeida, que existe até hoje na Vila Maria Baixa, era conhecida por exigir disciplina e aplicação de seus alunos, caso contrário éramos convidados a procurar outra escola, pena que os tempos mudaram

Os alunos que lá estudavam tinham seus uniformes impecavelmente limpos e bem passados, as saias das garotas continham pregas que eram passadas uma a uma pelas nossas maravilhosas mães. As fitas nos cabelos eram engomadas, na cor branca, mesmo.

Quem não tinha cabelos compridos era obrigada a usá-las, caso contrário, a professora senhora Iolanda, da terceira série, severa e impetuosa, nos impingia a usar uma fita feita de folha de caderno e que mais parecia uma borboleta pousada em nossas cabeças. Era ridículo e humilhante, mas obedecíamos como cordeiros.

Eu, sempre fui uma garota irrequieta, o que me garantia um lugar junto à mesa da professora. Sentava-me com outra aluna, completamente o oposto de mim, calma, doce, engraçadinha, chamada Vilma da Silva Aleixo e que eu adorava, para ver se eu seria influenciada por ela. Mas que nada, eu era autêntica, só que meu castigo era escrever sob a mesa da professora virando o corpo para conseguir tal façanha.

Puxa vida! Quanto safanão eu levei por conta da minha inquietude, quanto "croc" na cabeça, a senhora Iolanda me dava com os nós de seus dedos com a mão fechada, só por olhar para o lado ou errar uma conta. Quando isso me acontecia ficava muda, com muita raiva, meus olhos pareciam que iam sair das órbitas, mas era só questão de segundo, esquecia logo a seguir, não adiantava, não conseguia mudar.

Na saída da escola, eu e minhas amigas: Marinete, Neuzinha e outras tantas, corríamos até a barraquinha do "tio" que ficava em um terreno ao lado da escola, onde hoje há uma churrascaria, e que vendia pirulitos feitos com calda de açúcar no formato de animais, eram avermelhados e transparentes, ele vendia outros doces também, mas esse era o mais concorrido e enchiam os olhos da petizada que "aos trancos e barrancos" queriam chegar primeiro junto à carrocinha.

Saíamos dali, como se fossemos campeões de algum torneio, com a taça. Pirulitos erguido, elevando-os o mais alto que pudéssemos para que ninguém os tirasse de nós.

Seguíamos em bando, cada um em direção a seus lares, sempre a pé, nada de ônibus. Subíamos o famoso" escadão" que fica ao lado da Igreja Nossa Senhora da Candelária, e olha que não é fácil subir de um só fôlego aquela escadaria, apostávamos corrida para ver quem era o primeiro a chegar ao topo. Gritávamos:
-“Quem chegar por último é a mulher do padre".

Sentávamos em fileira no alto das escadas, tomávamos fôlego para seguir em frente.

Juntos, pela rua, íamos saltitando, cantando, mexendo com os cachorros, ou tocando as campainhas das casas, para estimular a galera a andar mais rápido a fim de chegarmos logo em casa e gritávamos, ainda da porta de entrada um sonoro e estridente:
-“Mãe… Cheguei! ‘Tô’ com uma fome danada, o que tem pra comer?".

Que tempo bom, que gurizada legal e ativa, que vida feliz foi a minha infância. E você acha que eu poderia ser uma garota cheia de mimos, como todos queriam que eu fosse? Eu era a caçula de cinco irmãos o mais novo deles com uma diferença de oito anos para mim. Problemas? Tínhamos aos montes. Dificuldades? Muitas. Doenças? Nem me fale e outras tantas ocorrências que narrarei mais tarde, mas conseguimos superar e ir em frente, sem traumas, sem "stress" sem síndromes, sem desculpas para não sermos felizes.

Deixo aqui um abraço aos meus amigos de infância, alguns, amigos até hoje.Onde quer que vocês estejam.

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