Tio Djuá, como nós o denominávamos pelo sotaque de toda a família italiana circundante, realmente era um eterno menino. Nascido e criado na Bela Vista, entre mais de seis irmãos, incluindo irmãs, tinha algumas características leves da Síndrome de Down, o que nunca o impediu de ter uma infância feliz, frequentando a escola e mais tarde, já rapaz, arrumando um
trabalho.
Era moreno, de rosto arredondado, olhos bem marcantes castanhos escuros, cabelos lisos, bem cortados e pretos. Gostava de manter sempre um bigodinho fino. Era também gordinho e alegre, porém algumas vezes ficava sisudo. De estatura mediana, trajava-se elegantemente de terno completo, usando chapéu da cor do mesmo.
Sua grande paixão era o futebol. Adorava assistir os jogos, principalmente os do time Heróis Brasil, do bairro. Porém, nas partidas, a atração principal não era somente o time, a bola significava para ele o atrativo de maior valor nos certames. Tanto era que se a dita cuja escapasse, lá corria ele para pegá-la e entregá-la mais rapidamente do que o responsável pela tarefa. A meninada ficava sempre de olho para zoar, costume típico da idade.
Então, no grande quintal da vila onde morávamos, os traquinas à tardinha, disputavam a famosa pelada. E,quando Djuá descia as escadarias da vila para tomar seu costumeiro chá na casa de sua irmã Gemma, após o trabalho, deparava-se e entretia-se com os jogos e era só a bola escapar… Mais do que depressa, corria para pegá-la, mas os meninos espertos apanhavam a mesma antes dele. E aí, como uma criança, sentava-se emburrado e chorava,dizendo:
– “A bo, eu quero a bo!”
E nada de os meninos obedecerem e a partida acabava, pois ele corria atrás de todos e conseguia pegar a bola. Suado, dizia que iria guardar a bola e os meninos chamavam sua irmã, para que ela o convencesse a devolvê-la. Muito brava e de avental, Gemma então energicamente falava:
– “João, devolva a bola!” – e ele retrucava:
– “Não Gemma, eu quero a bo…” – respondia o menino agarrando a borrachuda.
Após muita insistência, sua irmã conseguia que ele a devolvesse:
– “Está bem, devolvo a bo, mas quero pegá-la na partida. Eu quero a bola!” – já conseguia pronunciar menos nervoso.
Depois da vinda do chá, naquela mesma tarde, placidamente, tirava bolas de gude do bolso e distribuía aos mesmos meninos,quando não, dava-lhes balas e confeitos. Para as meninas empresta álbuns de figurinhas de times de futebol e distribuía laços e fitas de cabelo.
O fato era que a bola, essa sim; tinha um valor incalculável… Saudades de tio Djuá, uma eterna e pura criança, como poucas.
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