A fila começara a se formar antes das 8h, embora os voluntários só começassem a chegar por volta das 9h. O aviso fora dado:
– "Meninos e meninas, cheguem ao domingo às 10h, quando serão abertos os portões. Não precisam ter pressa, os presentes são nominais e cada um de vocês receberá o seu."
Mas não adiantava, a ansiedade era muita e aquele domingo de dezembro era esperado há muito tempo; afinal os padrinhos que lhes compraram presentes sempre caprichavam. Por isso mesmo era bom garantir o seu lugar na fila, pensavam eles. Vai que alguém se engana e troca o nome na hora de entrar. Melhor não bobear. E antes das 8h a fila já virava a esquina daquele conjunto habitacional na longínqua periferia de São Paulo.
Horário combinado, chegaram os voluntários, começou o atendimento e todos se acomodaram no salão de festas daquele conjunto, cedido para esse trabalho anual, que levava um pouco da magia do Natal a algumas centenas de crianças de favelas da região, previamente cadastradas por eles.
Festa rolando, alegria, sanduiches, doces, música e o momento tão esperado chegou: a distribuição dos presentes!
– "Crianças, atenção, vamos chamá-los, peguem seu presente nas mãos do Papai Noel, dêem as mãos para as mamães e Feliz Natal a todos. Vocês já sabem, abram seus presentes em casa, está bem?"
A medida era cautelar para não criar confusão e comparação entre as crianças; mas uma das crianças furou o bloqueio e, ao pegar sua sacola de presente, tamanha era a expectativa, não aguentou. Sentou-se no chão e começou a abri-la, no meio daquele tumulto; sua mãe nesse momento pegava a cesta básica de Natal e não percebeu que a criança tirava da sacola os pacotes de presentes.
De repente, o menino avistou dentro do seu presente, uma caixa de tênis: aquele tênis que ele nunca tivera ao longo de seus seis anos. Novo, com luzes, colorido, mola, do jeito que ele via nos pés das crianças que não moravam onde ele vivia.
Às vezes ele ganhava algum parecido, mas era tão surradinho que as luzinhas não acendiam, a mola já estava gasta e o colorido não brilhava.
Mas esse tênis não, era novinho e tinha tudo isso. Ele não pensou duas vezes: tirou seu chinelinho e rapidamente calçou o tênis. De sua boca saiu um grito tão intenso, que momentaneamente o barulho diminuiu e todos se voltaram para o centro do salão para ver o que acontecia:
"-Mãe, venha ver isso! Você não vai acreditar! É o meu número".
Quando a mãe e todos se aproximaram dele, perceberam que além de tudo o que aquele tênis representava para aquele garoto, o que o levou a essa explosão de sentimentos foi o fato de o presente ter sido comprado para ele, na sua medida, era um verdadeiro presente de padrinho, um padrinho que nunca o tinha visto, mas sabia quem ele era, sabia o seu tamanho, enfim, sabia que ele existia e o que ele tanto almejava!
Nesse instante, naquele salão, todos os que ali estavam, vendo aquele menino agarrado à sua sacola de presentes, testando o tênis novo, ora pulando, ora correndo, ora chamando o nome da mãe, não conseguiram esconder sua emoção e perceberam que a partir dai dividiam uma certeza: o Natal existe!
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