Um presente de Natal para o meu bairro, o Brás

A velha historia que vou contar completa 62 anos no dia 27 de dezembro deste ano. Foi um grande acontecimento, não só para o nosso bairro, mas também para a cidade de São Paulo.

No começo dos anos quarenta as avenidas Rangel Pestana e Celso Garcia, eram para São Paulo o que a Avenida Brasil era para o Rio de Janeiro "o caminho para São Paulo". Praticamente não havia outro caminho e poucas opções para se chegar à estrada que ligavam ambos os estados. Ainda não existiam as marginais muito menos a Via Dutra. E a Radial Leste só foi construída na metade da década de 50. E a Avenida Rangel Pestana era o inicio da estrada que nos levava ao Rio de Janeiro, passando pela Avenida Celso Garcia, Penha, Estrada de São Miguel e passando por Suzano, Mogi das Cruzes, Jacareí e através de todas as cidades do Vale do Paraíba e baixada Fluminense. Esse era o único caminho.

E para percorrer esse trajeto em dias úteis era um tormento. Por lá passavam veículos de transporte de carga, transporte coletivos que serviam a Penha, Pari, Vila Maria, Mooca, Belém, e táxis, veículos particulares, carroções de tração animal, carroças de mão, usados por verdureiros muito comuns na época, motocicletas bicicletas e muitos pedestres. Embora para eles existisse uma passarela lateral com escadas de ambos os lados. Lembro-me de que até de caminhões que transportavam trabalhadores nos horários de pico, tipo lotação lembrando os paus de arara nordestinos, mas sem bancos, iam todos espremidos e agarrados uns aos outros. Com um sujeito cobrando os usuários na hora da subida, sem nenhuma proteção e amparo.

Esse era um transporte ilegal, mas que ninguém impedia. Alem de tudo, havia o mais popular dos transportes coletivos o "bonde". Eram bondes numerosos, andavam sobre trilhos e muitas vezes causavam enormes transtornos. Pois se algo a sua frente bloqueasse a sua passagem, o transito se tornava caótico. Essas avenidas também interligavam quase todos os bairros da zona leste. Embora muitos dos coletivos saíssem de transversais como a Rua Antonio de Barros, no Tatuapé, que iam para Vila Carrão e outros bairros vizinhos. E também da Rua Guaiaúna, na zona da Penha, que levava a Vila Esperança, Vila Matilde, Artur Alvim, Itaquera e toda a região.

Mas o maior dos transtornos mesmo eram as Porteiras do Brás. Lembro muito bem do desespero de todos quando aquela campainha começava a tocar e as porteiras começavam a fechar. Duas por vez, à do lado direito dum lado com a do lado esquerdo do outro. E em seguida as outras duas, com a campainha sempre tocando, que só paravam quando ambas já estavam fechadas. Às vezes o trem passava em alguns minutos. Mas às vezes parecia que eles esperavam algum trem que estava saindo da estação da Luz, de tanto que demoravam a passar. Essa era a impressão que dava. E outras vezes os comboios de carga de um quilômetro de comprimento e sempre muito lentos na passagem. Isso não falando quando alguma locomotiva iniciava a fazer manobras locais irritando a todos.

Isso durou muitos anos e criava inúmeros problemas não só para o nosso bairro como também para a cidade de São Paulo com sua população sempre crescendo dia após dia. E sempre apareciam os salvadores da pátria com suas falsas promessas. Principalmente em épocas eleitorais. Mas como ate 1945 vivíamos em regime ditatorial, elas sempre acabavam como surgiam, em meras promessas.

Depois da queda do Getulio Vargas que governou o Brasil por 15 anos, voltamos à democracia. E em 1947 foi eleito o Doutor Ademar de Barros governador do Estado que em sua campanha eleitoral, prometia que se fosse ele o eleito iria se envolver profundamente na resolução desse eterno problema. Embora esse não fosse da sua alçada, pois era um problema de âmbito municipal. Mas realmente o governador no fim teve credito na realização dessa obra. E com a sua base aliada do PSP na Câmara dos Vereadores conseguiram apoio para abrir uma concorrência para a construção de um viaduto que teria de ser na Rua do Gasômetro. Único caminho viável sem que isso provocasse um problema mais caótico para o transito da região, pois os bondes eram os maiores empecilhos.

Esta parte da Rua do Gasômetro, depois da Rua Monsenhor de Andrade, era bem estreita e no fim da década de 40 não existiam tantas madeireiras no local como atualmente. O forte mesmo naquela época era o comercio de couros e o odor do couro se mesclava á fumaça que saia dos bueiros, perto da companhia de gás. O fim da rua dava para o paredão da linha férrea, donde se situava a Rua Cruz Branca… Que por sinal trazia más lembranças para toda a vizinhança, com dois ou três pequenos bares serviam de ponto de encontro de algumas prostitutas, e terminavam em um hotelzinho ao lado destes botecos. A construção do viaduto resolvia também esse problema para os moradores daquela região.

E com o empenho do Governador Ademar de Barros, e do Prefeito Coronel Asdrúbal da Cunha, logo surgiu à companhia construtora vencedora da concorrência. Que se comprometia a entregar o viaduto pronto em alguns meses. E no dia 21 de março de 1949 foram iniciadas as obras, que terminaram nove meses depois, dentro do prazo estipulado.

Eu era bem jovem naquela época, pois tinha acabado de completar 15 anos, e acompanhei com atenção a tudo o que acontecia. Pois tempo e curiosidade não me faltavam. Lembro-me de quando, no inicio do mês de novembro, bloquearam a Rua Vasco da Gama e parte da Rua do Gasômetro para fazer o desvio e a instalação dos trilhos dos bondes que teriam que cruzar o viaduto. E deixar o caminho para os “Mooca 8” e “Mooca 10”, que faziam um trajeto circular. Entrava na Rua Piratininga, Rua da Mooca, Bresser e voltavam pela Avenida Celso Garcia cruzando o viaduto, isso para o Mooca 8. Já o 10 fazia o caminho inverso ate chegar á Piratininga e subir a Avenida Rangel Pestana ate a cidade.

Ao mesmo tempo, no Largo da Concórdia eram construídas as ilhas para a parada dos bondes dos dois lados, e também o ajardinamento de toda a praça. A inauguração foi programada para o fim do mês de dezembro, mas ainda sem data definida. E tudo indicava que não haveria problemas. Finalmente anunciaram o dia 27 como o dia da inauguração e muitos festejos. Ela seria pela manhã, às 10h, e a noite as autoridades iriam fazer a sua parte. Haveriam desfiles carnavalescos e queima de fogos de artifício.

Só que não haveria o tradicional corte de fitas, costume usado sempre em inaugurações. Encontraram uma maneira mais pitoresca. Montaram uma replica das porteiras em gesso e o governador e o prefeito iriam, a bordo de um jipe, colidir com essa porteira, consumando assim a inauguração do viaduto.

Era uma terça feira e eu como não queria perder esse grande momento acordei bem cedo para conseguir um bom lugar. Mas infelizmente naquela manhã São Paulo deu o ar de sua graça e mostrou aquilo que todos nos estávamos acostumados a ver sempre "a velha garoa de São Paulo". O tempo realmente não ajudou em nada naquela manhã chuvosa, e garoa forte às vezes se transformava em chuva forte.

Eu consegui uma posição privilegiada, pois a chuva espantou muitos. Os funcionários da prefeitura não paravam de reconstruir as replicas de gesso que desabavam pesadamente atingidas pela chuva. E o governador, acredito, deveria estar aguardando por algum lugar na região, talvez no Palácio das Indústrias, esperando pelo aviso de seus assessores para o momento exato de acertar a porteira. Quase 12h e a chuva não dava trégua. Ate que chegou uma hora que se eu não estivesse atento não teria visto nada. Pois o Jipe surgiu do nada e arrebentou as porteiras. O parabrisa do jipe trincou ao ser atingido pelo gesso encharcado.

Lembro-me da cara de espanto e medo do governador naquele momento da colisão. E eu tão perigosamente próximo fui quase atingido por um pedaço do gesso. E na reação intuitiva que tive agarrei esse pedaço com as mãos como se estivesse agarrando uma bola. Esse pedaço de gesso eu guardei de lembrança por muitos anos. E nele com uma chave de fenda gravei a data o nome do governador e do prefeito. Quando tive que deixar São Paulo em 1965 eu os tinha guardados em um quartinho dos fundos, onde morava a minha mãe.

Junto com essa lembrança tinha também inúmeras outras, como umas duas dúzias daqueles triângulos prateados que enfeitaram o céu naquela noite do IV centenário de São Paulo. Eu sempre fui muito conservador e gostava de colecionar objetos e coisas de historia, recortes de jornais com assuntos históricos e diversos álbuns de figurinhas que preenchia e nunca trocava pelo premio. Tinha duas edições especiais da Gazeta Esportiva das copas do mundo de 1950 e 54. Como tive que viajar não pude levá-las. E em uma de minhas viagens a passeio, anos depois ao procurá-las, descobri que em uma limpeza que fizeram no tal lugar na minha ausência, foi tudo para o lixo, para a minha decepção e tristeza.

Mas continuando com a festa, a noite uma multidão muito grande compareceu, ao contrario daquela manhã. E mesmo com a chuva forte que caia, ao som do samba e das marchas carnavalescas, cordões e escolas de samba, cantarolavam a musica do: “Adeus Adeus Porteiras dos Brás. Já Vai Embora Já Vai Tarde Demais!” Era tudo alegria. E os políticos felizes pelo comparecimento em massa da população ao mesmo tempo tristes pela chuva que ensopou a todos. E os discursos tiveram que ser mais breves, felizmente (para nós). A festa terminou mais de 23h.

As semanas passaram e aos poucos começamos a perceber que o problema não estava completamente resolvido. O viaduto era estreito demais e como a avenida continuou aberta, tiveram que instalar semáforos no cruzamento do Largo da Concórdia e tudo seguiu sem muita solução, o trafego continuava na mesma, agora a fila dos bondes ficava no viaduto com os ônibus enfileirados atrás, pois não havia espaço suficiente para ultrapassar.

E assim somente depois de mais 20 anos foi que a coisa melhorou. Construíram a Via Dutra, as marginais, a Radial Leste o Viaduto Nalberto Marino na Avenida Rangel Pestana, e alem de tudo desativaram os bondes, que eram grande parte do problema.

E eu hoje estou emocionado e feliz de poder estar ainda por aqui para contar a vocês esta historia, na qual tive o imenso prazer de ser testemunha.

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