Natal, época cheia de alegria para uns e de melancolia para outros. Quando menina, lembro-me de que o nosso Natal, não era muito diferente dos dias normais, não havia comemorações como nas casas dos vizinhos. Dona Joana e família, e sua inquilina Luzia minha sogra, onde havia jantares fartos com todas aquelas iguarias peculiares à data que estavam comemorando.
Na minha casa, além da árvore de Natal, o que deixava transparecer a data, era a figura da minha mãe, Piedade, sentada em uma cadeira junto ao fogão, com um pano de saco imaculadamente limpo sobre os joelhos, abrindo uma massinha como se fosse uma pizza, porém bem fina, chamada pelos portugueses de "cascureis" e que depois de prontos iam para a frigideira e ganhavam uma cobertura peneirada de açúcar com canela. Além dessa iguaria ela fazia ainda vários pratos de "litria", onde escrevia sobre cada prato, com canela em pó, o nome de seus cinco filhos.
O Papai Noel era modesto por lá, ás vezes trazia algum presente, outras simplesmente passava reto, indo para a casa do vizinho, isso nos deixava meio decepcionados, mas logo a nossa tristeza era compensada por três pessoas maravilhosas que moravam na vizinhança. Eram os senhores Quidinho, Pacheco e Vicente. Esses eram mais esperados do que o tal Papai Noel, nessa data, eles despojavam-se das salas de suas residências. O primeiro na Avenida das Cerejeiras, próximo a farmácia do senhor Luiz; o segundo na Rua dos Samurais, em frente ao armazém do Joaquim irmão do José da Pinta; e o último ao lado onde hoje existe a Academia Draleon na Avenida das Cerejeiras.
As salas depois de vazias davam lugar a um presépio maravilhoso que tomava mais da metade daquele espaço grandioso, todos eles se esmeravam na confecção do cenário, dos personagens, do maquinário que envolvia aquela montagem cheia de luzes, águas caindo,contornando morros, trens saindo de montanhas, bonecos na "lida", casas, celeiros e outros paramentos. Aos nossos olhinhos, era como ver uma "fábrica de chocolates".
Passávamos horas, observando cada detalhe dos referidos presépios, sempre que tínhamos oportunidade, levávamos um amiguinho para conhecê-los, só para termos a desculpa para darmos mais uma olhadinha naquelas obras de arte. O tempo foi passando, senhor Quidinho, morreu muito novo, dentro do bar do meu pai, sua esposa, a senhora Chica, e seus filhos Ruth e Luis Carlos mudaram-se para a praia, o senhor Pacheco e o senhor Vicente ainda continuaram por um tempo, mas depois que partiram deste mundo, seus filhos não continuaram as obras de seus queridos pais.
Que pena!Tenho muitas saudades daqueles momentos e sinto pelos meus filhos e netos que não puderam apreciar aquele espetáculo daqueles três artistas responsáveis pelos muitos momentos felizes que o Natal representa em minha memória. Que presente maravilhoso eles nos ofertavam.
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