E o Luizinho virou uma lenda urbana

A "grana" estava curta. Parecia que a solidão diminuía o dinheiro ainda mais. Fazer o quê? Quando resolveu se separar da mulher tudo estava ao seu favor. Até o chefe:
– “Luizinho, não posso te dar aumento agora, mas "tô cuntigo". Se precisar de alguma coisa é só gritar. Antes de ser seu chefe sou seu amigo. Amigão, hein… Vá para o mundo, Luizinho. A "mulherada" está à sua espera…”.

Começaram os dias de sossego. Filhos? Não tinha. Dar satisfação? Nenhuma, nem para ninguém. Horário? Só para o escritório.

E como prognosticou o chefe foi conferir se a mulherada estava mesmo à espera. Todas as noites ia para a vida. Todos os dias voltava para a vida. Era o mesmo "papo" assim que chegava ao escritório, situado naquele prediozinho estranho e suspeito no centro velho:
– “Arranjou namorada Luizinho? Um homem não pode ficar na "secura". Olha, se precisar de um "valezinho" para agradar "una chica" basta avisar. Vamos ver o que dá pra fazer”.

Mas exatamente na mesma proporção em que o "chefe" insistia para que o Luizinho conhecesse alguém a solidão ia aumentando. E ainda por cima era inverno. E "dus brabu". O "kitchnet" alugado na Avenida Rio Branco era um "gelo". Era por essas e por outras que a idéia era ficar o mínimo possível no "apê".

Podia ter me separado no verão ou pelo menos na primavera. Pegava uma prainha, "rolava" um chopinho, sei lá… Mas frio? Ninguém merece. Ainda mais vivendo sozinho. Que droga, pô!

E põe droga nisso porque as coisas começaram a ficar "estranhas". Ainda mais quando a Ingrid, sua "ex" ligou dizendo – entre outros assuntos obrigatórios – qualquer coisa como:
– “Aconteceu Luizinho. Estamos separados agora. O que podemos fazer? O que você precisa é conhecer alguém, arranjar uma namorada, sei lá. Sua vida vai melhorar, bobo”.

Como dizia um grande amigo: "tá tudo bem, mas tá esquisito". Estranho aquilo tudo. Tinha "cupido" demais na história. Senhor Derci, o chefe (Luizinho sempre achou que era nome de mulher) insistia na "mulherada".

Ingrid chegou até a falar na necessidade dele arranjar uma namorada, imaginem só!

Mas a verdade é que o frio que o Luizinho sentia não era do inverno. Vinha de dentro, das entranhas. Começou a "bater" um arrependimento esquisito e o tempo inexorável, trazia muitas lembranças da "ex". Lembrava daquele corpão. Bem conservado, com tudo no lugar. O fato é que Ingrid era uma "mulheraço" que aparentava bem menos idade do que tinha.

Passou pela cabeça até a quantidade de vezes que teve que "ficar de olho" nos amigos que ele tinha certeza que não deixavam de "sacar" a Ingrid toda as vezes que podiam. Era um saco!
– “Mas agora tenho certeza que devia ter esperado um pouco mais para me separar. Sabe como é: pensar direito, "dar um tempo". Tô achando que foi uma baita mancada”.

O pior é que ele tinha exagerado nos gastos na procura de um novo destino ou um "novo corpão". As promessas do senhor Derci (Luizinho achava que era nome de mulher) a respeito de "vales", aumentos, "tô cuntigo" foram se distanciando.

E a roda do tempo continuou a girar. A "kitchnet" ficou insuportável. O frio foi embora, mas a primavera e o verão não resolveram nada. Fazia já um bom tempo que o Luizinho tinha resolvido se afastar de tudo. Um emprego – "meia boca", arranjado por um conhecido – tinha o feito esquecer até do senhor Derci (Luizinho achava que era nome de mulher). Mas não o fez esquecer o corpão da Ingrid, do feijão da Ingrid, da "conchinha" na hora de dormir com a Ingrid.

Tudo isso estava longe agora. Alguns poucos anos tinham passado. E começaram os "maus pensamentos":
– “Vou ligar para a Ingrid. Não agüento mais”.

Hesitou uma vez, hesitou duas vezes, hesitou três vezes, sucumbiu e pegou o celular e ligou para o mesmo número. Aquele mesmo de alguns anos.
– “Alô”.
– “Por favor, posso falar com a Ingrid?”.
– “Ela não está!”.
– “Sabe quando ela volta?”.
– “Só na segunda. Ela foi para a casa da praia com o marido e o filhinho. Aqui é a cunhada dela”.
– “Marido? Ela é casada?”.
– “É! Com o senhor Derci.

Luizinho desligou o "celular" e cochichou baixinho:
– “Esse mau caráter tem nome de mulher”.

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