A bandeira do Divino

Tínhamos uma pequena pensão na Rua Teodoro de Beaurepaire, no bairro do Ipiranga.

Lembro-me de que um dia uns homens bateram palmas no portão e mamãe foi atender, um deles segurava na mão um pedaço de madeira com uma pomba rodeada de fitas de varias cores e flores. Outro trazia um violão e outro uma sanfona:
– “A senhora nos permite entrar para abençoar sua casa nos trazemos a bandeira do Divino”.

Mamãe toda empolgada mandou que entrassem:
– “Maria vai chamar os vizinhos”.

‘Dona’ Flora tirou o avental, os chinelos, passou o pente nos cabelos e veio correndo. Foi assim que aconteceu! Umas chamavam outras e a casa ficou lotada.
– “Maria, vai à venda e compre mortadela com pão para fazer lanche para essa gente”.

Eles tocavam e cantavam:
– “A bandeira do Divino, vai fazer sua morada, ‘pra’ lembrança do Menino ser bem vinda e ser louvada”.

As vizinhas falavam:
– “Esta casa vai ser abençoada” – enquanto tomavam café e comiam o lanche.

Acabou a musica cada uma voltou para a sua casa. Mamãe correu para fazer o jantar, estava na hora de o meu babo e irmãos chegarem do trabalho. Eu olhei por cima do bufê e disse:
– “Mãe, o despertador sumiu!”

Procuramos pela casa toda e nada de encontrar. Mamãe chorava:
– “E agora como vou fazer? Amanhã cedo todos vão perder a hora”.

Coitada da mamãe que levou uma bronca do babo. Pendurou o relógio de bolso do babo na cabeceira da cama e não dormiu a noite toda de medo de perder a hora Na manhã seguinte o comentário era sobre o despertador.

Até hoje eu não sei quem o pegou, mas ficou a lembrança bonita do Divino. Eu até comprei um disco do Ivan Lins com essa musica, que às vezes ouço.

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