Cenas no invisível largo urbano

Despercebido, um velho miserável se arrastava em trapos pelas calçadas do centro fervescente no labirinto urbano de uma cidade viva. Passava pouco do meio-dia depois de uma manhã cansada em lembranças angustiantes de um amor que insistiam numa complexa dimensão de espaço-tempo. Seu olhar sereno e aflito lhe trazia o véu dos últimos minutos de um amor adolescente. Era como um encanto suspenso…

Em milhões de pingos não vistos pelas ruas frias que se desenhavam distantes, lágrimas se perdiam numa chuva miúda e insistente. Em silêncio cortante pareciam flutuar num fim de tarde na invernia cinza que baixava sobre seus corpos sãos. Não poderia ser mais delírio o que já era uma manifestação poética na flor dos anos. Não poderia ser segredo o que estava desenhado nas ruas frias num fim de tarde. E assim se fazia o fim pelas ruas de um cenário envolto na tristeza invernal perto da noite.

Não compreendiam o começo, também não lhes interessavam o que poderia ser a intensidade que lhes queimava os sentidos num entusiasmo avassalador e excitante. O amor se manifestava em tesão e ternura na flor dos anos com o doce sabor dos beijos lascivos e leves numa descoberta intensa.

Quando não estavam juntos, os ponteiros se arrastavam e o tempo passava lento. Quando se encontravam, as horas aceleravam como o pulsar de seus corações. Os riscos mais visíveis lhes pareciam simples desafios sem limites. Equilibravam suas vontades no fio nu entre o prazer e o pecado nas tardes de junho. Corriam livres pela cidade numa estação de inverno. E a cada estação de parada, máquinas lhes transportavam para o céu de rosas sem o planto dos mistérios e a incerteza dos milagres. As imagens passavam rápidas através do vidro de segurança como uma tela viva. Vidas em cores neutras e movimentos retardados sem importância.

Buscavam os leves raios de sol que banhavam o parque central de luz. Alimentavam-se de olhares carinhosos e contatos suaves ao sabor em êxtase. Flutuavam adormecidos numa paixão sem culpa e uma vontade sem medo e maldade. Eram flores dentre outras numa beleza exposta.
De impulso espontâneo e alheio à razão, se descobriram numa outra tarde de encanto. Em febre experimentaram o grande prazer dos sentidos na inviolável sala de reverências. Não sentiram remorso nem contrição após o clímax. Extasiados acreditaram no para todo o sempre desejo adolescente… Nos bilhetes recortados e lançados no tempo, as palavras postas definiam tão boa manifestação em decurso na flor dos anos. Imprimiam signos sensíveis no concreto armado de uma cidade acesa em suas muitas faces. Espalhavam essências aromáticas nas tardes frias de junho…

Meu amor em segredo amanheceu cansado
E meus olhos sem brilho encontraram você após uma noite em cor
Como paixão de mel e lua
De pele em flor.
Por tudo amor de intenso instante
Ardente e cortante
Por todo amor em versos livres
Por todo amor segredo intenso
Amor instante.

Seu amor em segredo amanheceu em dor
E seus olhos suspensos em lágrimas
Buscavam o céu em rosas num beijo de encanto sabor.
Por tudo amor de intenso instante
Ardente e cortante
Por todo amor em versos livres
Por todo amor segredo intenso
Amor instante.

(…) Milhões de pingos caiam insistentes numa tarde fria envolta num véu triste. Um lapso lançou sentimentos adolescentes aos holofotes do julgamento. Já não era segredo o crime contra a razão aceita. Era o rompimento de um amor manifestado na flor dos anos. Um encanto suspenso onde se arrastava em trapos pelas ruas centrais, o despercebido miserável preso às lembranças de um amor que insistia numa complexa dimensão de espaço-tempo. Solitário, seguia para o Parque Da Estação da Luz em busca dos fracos raios de sol que aqueciam os sentimentos envoltos num véu pairando sobre a cidade viva.

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