O Natal é uma data simbólica. Carrega em si todo o simbolismo de uma crença predominante no Ocidente. Mas ele é muito, muito mais que isso. Simbólico ou não, ele tem uma magia que acaba envolvendo toda a gente, e 90% das pessoas tornam-se mais ternas e acessíveis nesta época. É como se a proximidade da conclusão de mais um ano, ou menos, nos mostrasse que apesar dos pesares conseguimos e queremos compartilhar esta vitória. Por isso as pessoas solitárias ou sem família, ficam, muitas delas, depressivas nesta época, mas o óbvio diz que não há regra sem exceção.<br><br>O senhor Heinz e a senhora Truddy chagaram ao Brasil por volta de 1938, fugiam de um flagelo chamado Hitler. Ele era austríaco, o típico ariano, tinha então uns 25 anos. Ela tinha uns 20 anos, muito bonita, mas era judia. O senhor Heinz, inteligente como ele só, logo percebeu que aquela loucura que já acontecia para os judeus na Alemanha, fatalmente se espalharia aos vizinhos mais próximos e fugiu. Veio em um navio que ele só sabia que vinha para algum lugar da América. Mas a América, começa no norte do Canadá e acaba no sul do Chile, por nossa sorte ele veio mesmo foi para o Brasil e para minha sorte foi morar no número 2030 (se não me engano) da Avenida Ataliba Leonel, lá na Parada Inglesa.<br><br>Quando eu nasci, em 1950, todo mundo lá já os conhecia e era amigo deles. Os alemães, como eram chamados. Cresci conhecendo-os, eu e todos os meninos e meninas que moravam entre as imediações das ruas Tomé Porte, Doutor Marrey, Professor Marcondes e adjacências.<br><br>Isso porque eles não tiveram filhos, e a senhora Truddy resolveu assim adotar a todos nós. Vivíamos na casa dela, éramos os filhos que Deus deu a ela, sem nunca ter-lhe dado nenhum, conforme ela mesma nos definia. Era impressionante o carinho, a afeição e o afeto que eles nos dedicavam. A gente não passava um único dia sem dar uma passadinha lá. Os meninos e meninas cresceram, viraram moços e moças, e os moços e moças viraram homens e mulheres, mas o apego a este casal crescia conforme crescíamos nós. <br><br>E era no Natal que isto ficava mais evidente, era um entra e sai daquela casa que não acabava mais. Todo mundo queria levar uma lembrancinha para eles e eles sempre tinham uma lembrancinha para cada um de nós. Na véspera e no dia de Natal então, era uma briga… Sempre desejávamos que eles fossem passar a Ceia ou almoçar nas nossas casas. A disputa era acirrada, mas eles sempre davam um jeito de agradar a todo mundo. Nunca vi nada igual.<br><br>Eles não tinham nenhum parente, os do senhor Heinz morreram todos na guerra e os da senhora Truddy nos amaldiçoados campos de concentração, mas mesmo sem ter ninguém eles tinham a todos nós. Por isso sempre quando chega o Natal lembro-me deles e vejo o quanto o amor pode construir. Tenho certeza que eles jamais se sentiram sozinhos ou deprimidos. O amor deles lhes deu uma família enorme.<br><br>Infelizmente, em meados de 1983 a vida nos tirou a senhora Truddy, e como era de se esperar, poucos meses depois ela veio buscar o senhor Heinz. <br><br><br>E-mail: [email protected]