O Alencar levantou cedo naquela sexta feira santa. Abaixou a cabeça ainda sonolenta e olhou debaixo da cama tateando com os pés a procura pelos chinelos. Finalmente os encontrou. Iria logo mais a noite, até a igreja de Nossa Senhora da Lapa. Tinha combinado com sua namorada Maria do Carmo e a Lavínia, amiga dela, que iriam se encontrar na Rua Barão de Jundiaí, próximo a Rua Doze de Outubro e acompanhar a procissão do Senhor morto logo mais, às oito horas da noite.<br><br>O Alencar ligou o rádio. A programação era toda voltada para o culto da semana santa. As músicas, todas sacras, em sinal de respeito pelo dia da paixão e morte do senhor rodavam na fita magnética dos rádios durante todo o dia. Havia no ar um silencio fúnebre por aquele importante acontecimento religioso. As famílias e os todos fiéis reunidos em torno do rádio, desfiavam as contas do rosário em homenagem a Maria Santíssima. Naquela época, os tempos eram outros. Estavam no inicio dos anos 50.<br><br>Na programação sacra o locutor do rádio lia os textos religiosos intercalados com os anúncios da publicidade. Foi quando entre um anuncio e outro, o Alencar, sintonizado nos 1410 kHz da Rádio América, ouviu que a emissora estavam precisando de um exímio datilografo para as funções de rádio fiscal. A princípio ficou confuso. Datilógrafo ele era, porém, de exímio não tinha nada. Conseguia bater no máximo vinte palavras por minuto, usando só os dedos do indicador. Do rádio fiscal, porém, não tinha a menor idéia do que se tratava. Como estava desempregado já há algum tempo, iria sem falta na segunda feira, depois do domingo de Páscoa, se apresentar na Rádio América na Rua da Consolação.<br><br>No dia da apresentação vestiu uma calça social, uma camisa branca listrada, um sapato “mocassino” preto e lá foi ele, pretenso candidato ao novo emprego. Será que conseguiria se superar no manejo da máquina de escrever? Estava deveras preocupado. E quanto ao cargo? Não sabia nada. Não tinha a menor idéia do que se tratava. Estava jogando no escuro. Porém, não tinha nada a perder. O máximo que lhe poderia acontecer era ser desclassificado e retornar para casa com mais uma pequena frustração no seu já extenso currículo pessoal.<br><br>Mas estava disposto a encarar o desafio. Tomou na Lapa o bonde 35 em direção da Praça do Correio. Aboletou-se no primeiro banco do cara dura. Quando o cobrador passou, o Alencar fingiu que não era com ele. Olhou distraidamente para a paisagem da rua, observando com atenção as instalações do Curtume na Rua Carlos Vicari antes da Avenida Francisco Matarazzo, onde exalava o cheiro forte impregnando o ar no bairro de Vila Pompéia com o odor fétido e desagradável, característico do couro cru a ser curtido. O Alencar olhou mais a frente, para o muro de tijolos vermelhos da imensa fábrica da Água Branca das Indústrias Reunidas Matarazzo que margeavam na quase totalidade a extensão dos trilhos do bonde, onde se lia na caliça da fachada de entrada da fábrica a propaganda do óleo Sol Levante.<br><br>Naquele momento, porém, o pensamento do Alencar estava voltado para o possível novo emprego. Fazia mentalmente muitas conjecturas de como se sairia naquele teste de datilografia. Finalmente, o bonde se aproximou do Largo do Paissandu e antes que ele entrasse na Rua Capitão Salomão o Alencar saltou do bonde, naquele clássico “pula de costas e segura o corpo com o pé esquerdo fincado no chão”, em um perfeito malabarismo, para não se estatelar nos paralelepípedos da rua. Nisso ele era um craque. <br><br>Olhou para o relógio de pulso e consultou as horas. Dez para as oito da manhã. Tinha que estar na Rádio América as oito em ponto. Subiu pela Rua Conselheiro Crispiniano, passou de fronte ao Teatro Municipal, entrou na Rua Xavier de Toledo e seguiu até as confluência da Rua da Consolação com a Rua São Luiz. O velho casarão fazia divisa entre as duas ruas. A entrada principal era pela Rua da Consolação. Depois de passar pela portaria e se identificar, subiu uma velha escada de madeira até o andar superior. O entrevistador era um tal de Alberto. Era ele, o chefe do departamento de publicidade da emissora.<br><br>Depois das apresentações, a conversa foi breve, sem nenhum entrave que pudesse obstaculizar o seu ingresso. Não havia mais nenhum candidato ao cargo. O emprego era do Alencar. Começaria de imediato. Como estava se aproximando do limite da idade para a convocação do serviço militar, não houve o registro na carteira profissional de trabalho. Ficaria trabalhando até a apresentação para prestação do serviço militar, como simples empregado informal.<br><br>O trabalho era fácil. O referido rádio fiscal era na realidade para fiscalizar os textos inseridos na programação diária pelos anunciantes. O ambiente de trabalho era composto de uma pequena edícula ao lado da escada de acesso do andar superior onde havia um velho rádio de válvulas ligado o dia todo na sintonia dos 1410 kHz, da Rádio América. O Alencar ficaria ali posicionado junto de uma mesinha com a velha maquina de escrever Olivetti, anotando os anúncios e os jingles inseridos no momento da sua ida ao ar. Para o controle do anunciante tinha que marcar à hora, os minutos de cada anúncio. A tarefa era fácil. Apenas necessitava prestar atenção nos jingles e no locutor, para não perder nenhuma inserção no texto da programação.<br><br>O Alencar logo de inicio fez amizade com uma moça, a Maria Martins. Na saída pela Rua São Luiz, conheceu o Zé Caninha, debruçado no balcão do bar no subsolo da radio a pedir:<br>– “Põe cinquenta centavos de pinga” – e dando um pouco para o santo, bebeu de um gole só.<br>- “E este senhor quem é?” – perguntou o Alencar curioso ao Zé Caninha.<br>- “É o Tom Bill o homem que faz o programa O Congresso da Alegria” – disse o Zé Caninha, pedindo mais uma dose de caninha.<br><br>Nesse instante entrou o Salomão e pediu um café. Atrás dele, espiando com curiosidade estava o Mário Martins da técnica conhecido como o eterno noivo da Maria Martins. “Estaria ele enganando a moça?” – pensou. <br><br>O Alencar aos poucos, estava se familiarizando com os personagens do elenco do rádio. O primeiro sírio enigmático, difícil de compreender a língua, apareceu no corredor. O rosto escanhoado de face lisa e nariz adunco era um tal de Achede Elias que entrou pela da Rua da Consolação e cumprimentou o Mané da portaria. Trazia nas mãos um contrato de propaganda dos biscoitos Duchen para o Vital Fernandes da Silva. “Mas quem era esse senhor?” – pensou o Alencar. Nunca tinha ouvido falar nesse nome. O Esper distraído, olhando para o Alencar disse:<br>- “O homem é o Nhô Totico. Aquele da escolinha da ‘Dona’ Olinda, o programa das seis e meia da tarde”.<br><br>O Alencar ficou pasmo. Todos os dias assistiam em casa a escolinha da professora ‘Dona’ Olinda e aquele era o autor dos personagens famosos:<br>- “Aquele que você esta vendo ali atrás do vidro liso, é o Evilásio Simões de Carvalho da técnica, mais conhecido por Paquinha” – disse o Ivan da manutenção.<br>- “E este quem é?” – perguntou o Alencar, olhando para o Sales da tesouraria, que vinha entrando de mansinho nos bastidores do estúdio.<br>- “É o dono da grana” – riu o Mario Martins.<br>- “E aquele senhor baixinho, de charutos “havanas” dispostos em simetria no bolso do paletó azul marinho?”<br>- “Ah! É o nosso redator de jornalismo e de radiofonia de novelas, o Gaya Gomes”. – disse o Salomão Esper.<br>- “Quando me mudei para o Alto da Lapa, tinha uma torre de transmissão perto de minha casa”. – disse o Alencar olhando para um careca que estava sentado ao lado do doutor José Pezutte Cavalcante, o diretor geral da emissora.<br>- “É o Florêncio Cardoso Terra, dos transmissores” – se antecipou o homem calvo que olhava agora fixamente para o Alencar.<br>- “E você quem é?” – perguntou o Alencar se dirigindo ao homem.<br>- “Sou o mano caçula do Salomão Esper, o Salomão Junior”- disse ele manuseando um disco de vinil, uma bolacha de setenta e oito rotações, que tinha acabado de retirar da discoteca.<br><br>Finalmente, o Alencar já estava senhor da situação. Era o mais novo contratado do rádio fiscal da antiga Rádio América, no prefixo 1410 kHz, na década de 50, na Rua da Consolação, esquina com a Rua São Luiz.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>