Vamos dançar?

Na Vila Maria até o final dos anos 50 aconteciam pelo bairro afora os tradicionais e imperdíveis bailinhos. Todo sábado que Deus manda, numa ou noutra casa de família, um bailinho acontecia. Qualquer coisa servia de pretexto para a realização de mais um baile. Removiam-se os móveis da sala, dispunham-se as cadeiras junto a uma das paredes e pronto, a festa podia começar.

Quando havia muita gente, como nos casamentos ou festas juninas, o baile podia acontecer mesmo no quintal. Os dançarinos eram tratados como "damas" e "cavalheiros" e procuravam comportar-se como tal. Aqueles que dançavam muito bem eram chamados "pés-de-valsa", e os que dançavam mal, "pés-de-anjo". As damas, sentadas, esperavam quem as quisesse tirar para dançar e os cavalheiros, de pé no centro da sala, flertavam com elas, selecionando-se assim os possíveis pares. Passar parte da noite sem ser tirada para dançar ou, com se dizia, tomar um "chá-de-cadeira", não era coisa das mais agradáveis, como desagradável também era levar uma "tabua", ou seja, ser recusado pela dama com quem se pretendia dançar. Mas, eram as regras do jogo e ninguém chiava por isso.

Não faltavam músicas dançante nas rádios, pois, até o final dos anos 50, toda grande emissora (Record, Tupi, Difusora, Cruzeiro do Sul, Bandeirantes, Gazeta) mantinha em seu "cast" uma grande orquestra. Na regência dessas orquestras estavam maestros extraordinários como: Gabriel Migliore, Hervê Cordovil, Radamés Gnatali, Spartaco Rossi, Gaó, Francisco Mignoni e outros, que marcaram época na romântica paulicéia de então. Nas rádios, essas orquestras ofereciam um amplo repertório de música dançante como o “Fox”, o “Swing”, o Tango e os "calientes" ritmos tropicais, como a Conga, o “chá-chá-chá”, o mambo e a sensual “Rumba”, importada de “La Playa”, a zona boêmia de Havana, além, é claro, dos nossos sambas e valsas.

Nos chamados anos dourados, os inolvidáveis anos 50, o aconchegante bolero era a dança predominante nos bailinhos e também nos salões. A intimidade que esse ritmo permite e inigualável. Não dá para esquecer aquele baile, quando pela primeira vez se teve nos braços uma dama (ou um cavalheiro, se você for uma dama). Aquela noite maravilhosa em que ao som de um romântico bolero, rostos coladinhos, se deslizou suavemente pelo salão e por meio de frases, que pretendíamos fossem românticas, sussurradas ao ouvido ainda timidamente, traduzia-se a magia daquele momento inesquecível.

Parece que nunca se dançou tanto e tão bem. Dançava-se pelo simples prazer de dançar, nos bailinhos, nos clubes e nos salões. Os salões foram sempre muito numerosos nesta nossa paulicéia linda e desvairada. Os vilamarienses costumavam frequentar o Scala (na Rua Catumbi – Belenzinho), o Esportivo da Penha, o Floresta, o Tietê e o SER Vila Maria, aqui mesmo no bairro. Porém o xodó dos paulistanos, de quaisquer bairros, eram os salões do Centro do Professorado Paulista, na Avenida da Liberdade, cujos vesperais de domingo causavam um verdadeiro frenesi, com a presença bonita de tantos brotinhos.

Quantos sonhos românticos embalou a voz aveludada de Nat "King" Cole, em canções como "Star Dust", "Smile", "Love Letters" ou "Unforgetable" ? Quanto se dançou ao som das extraordinárias "Big Bands" de Glen Miller, Harry James, Artie Shaw, Tommy Dorsey, Benny Goodman e a do nosso querido Silvio Mazzuca? Você se lembra? Claro que sim! Não é?

Nos bailes de debutantes, casamentos ou aniversários era comum dançar suaves canções ou valsas. Nessas ocasiões fluíam pela sala as vozes de ouro dos nossos mais queridos cantores: Orlando Silva, Francisco Alves, Silvio Caldas e outros. A romântica, suave e intimista interpretação que o "italianinho", Carlos Galhardo, dá ao "Salão Grená" é simplesmente antológica e inesquecível.

Os dançarinos faziam questão de se apresentar bem, de serem bonitos. Nos cavalheiros sobressaia o rosto bem barbeado e no cabelo “abrilhantinado” um avantajado topete. Alguns exibiam ainda um discreto bigode a Clark Gable. O traje mais característico da maioria era um terno azul-marinho, com paletó modelo jaquetão, lenço branco no bolsinho, camisa branca, gravata colorida e, para completar, um par de sapatos pretos (Clarck) de brilho impecável.

As damas não deixavam por menos. O rosto com o clássico pó-de-arroz, enrubescido com um toque de "rouge", lábios à Joan Crawford, pintados com provocante batom e, nas pálpebras, um pouco de sombra. O cabelo era sempre muito armado, algumas vezes à custa de laquê. Os vestidos eram de organza, à “Dóris Day”, ou como os que Eliana usa nas chanchadas da Atlântica, muito vaporosos e com anáguas por baixo, brancas ou de cores suaves em rosa, azul ou verde, muito apertados na cintura, com cintos feitos do mesmo pano. As mangas eram curtas, muitas vezes com ombreiras e os decotes discretos (?). Que encanto. Meus Deus, como eram lindas! Ah, ia me esquecendo dos sapatos! Eram um luxo, modelo Luiz XV, salto alto (e como),brancos ou da mesma cor do vestido.

Alguns pés-de-valsa levavam muito a sério a arte de dançar e, vez por outra, aventuravam-se a ir a uma casa de danças no centro da cidade, chamadas "Táxi dancings" ou simplesmente "dancings". Eram casas extraordinárias, com orquestra própria e "táxi-girls" contratadas com exclusividade. Vale lembrar que as "táxi-girls" eram dançarinas profissionais e que dançavam todos os ritmos, do samba ao tango. Levavam consigo um cartão que a cada dança era perfurado por elas. Ao fim o freguês pagava pelo número de furos do cartão, ou seja, pelo número de músicas dançadas.

Entre os "dancings" preferidos dos paulistanos estavam o "Som de Cristal" (Avenida São João), o "Avenida Danças" e o "Maravilhoso" (na Avenida Ipiranga) este com orquestra própria regida pelo grande maestro Osmar Milani que, por longo tempo, teve como "crooner" o cantor Francisco Egidio, cuja impostação de voz e timbre cristalino, eram inimitáveis. Teve também o pranteado Agostinho dos Santos cuja suavidade de voz rivalizava com a de Nat King Cole e que precocemente nos foi levado, num acidente de avião no aeroporto de Orly, em Paris.

Apesar dos atrativos dos salões e das casas de danças, era indiscutível a preferência da moçada pelos aconchegantes e simpáticos bailinhos aqui mesmo realizados nas casas de família. Dançar com profissionais era ótimo, mas não tinha o mesmo sabor e a mesma emoção de se dançar com as nossas inocentes (?) mocinhas, como aquela nossa vizinha que, pela primeira vez, coladinhos, em um romântico bolero, nos fez sentir o calor e o perfume de uma mulher bonita. Bons tempos…

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