Vou aqui retratar uma época que para muitos vão relembrar e voltar no tempo, outros conhecerão um pouco da historia do bairro de Mirandópolis. Vou relatar alguns fatos e nomes. Nascido no hospital São Paulo na Vila Clementino em 1955, morava na Rua dos Lyrios, vivi ali por 25 anos.
Lembro-me que na minha rua, e acho que em quase todas, não havia asfalto, água de rua encanada nem pensar, todo mundo tinha seu poço, luz na rua era só uma lâmpada incandescente em cada poste que mal iluminava, as casas quase todas tinham apenas a ligação de 110 volts, chuveiro não tínhamos (chegou só depois) e banho era de bacia mesmo, na rua só algumas casas, só tinha mesmo terrenos vazios.
Tínhamos que ir a pé até a Praça da Árvore para pegar o bonde ou uma ou outra linha de ônibus e eram poucas. Lembro-me que depois começou a passar atrás de casa, na Avenida Senador Casemiro da Rocha, o ônibus que fazia a linha Planalto Paulista / Largo São Francisco, a famosa linha 570 da Viação São Benedito.
As escolas eram de madeira, uma delas era a nossa Escola do bairro de Mirandópolis, que ficava na esquina da Rua das Rosas com Rua das Hortênsias ao lado da Igreja Metodista, onde hoje é a praça na igreja Santa Rita de Cássia. Lembro-me que meu pai vinha me buscar de bicicleta, trabalhava ali perto na fabrica de buzinas Arapongas na Rua das Camélias, depois o governador Carlos Alberto Alves de Carvalho Pinto inaugurou a escola na Rua dos Bogaris (acho que foi em 1962) que passou a se chamar Grupo Escolar Professor Paulo Rossi.
Quando terminei o primário a diretora era Maria Nazareno Soares de Arruda, já no ginásio era Maria Faria Varanda. Depois construíram o Rui Bloem, antes da construção o local era uma grande chácara com muitas minas de águas límpidas onde era possível beber direto nas lagoas, de tão pura que era a água. Nestas lagoinhas era possível encontrar muitos peixes ornamentais “Lebiste”, que eu pegava para colocar no aquário que tinha em casa
Quando estudava no Rui Bloem o diretor era o Mario Pasqualini, atrás do Rui Bloem e do Paulo Rossi passava um rio, hoje e a Avenida José Maria Whitaker, ali perto fica a Avenida Odila, lembro-me de quando um avião da “Convair”, sucessora da Cruzeiro do Sul, caiu no bairro do Planalto Paulista matando todos os ocupantes, me lembro do estrondo que ouvi enquanto estava jantando na casa da minha avó, vi o avião pegando fogo e caindo nunca vou esquecer esta cena
Lembro-me da época do prefeito Faria Lima, dos operários construindo as avenidas Rubem Berta e 23 de maio, e do inicio das obras do metro na Avenida Jabaquara em 1969, o prefeito em cima de uma retro escavadeira dando inicio as obras em frente ao prédio da Telefônica, ali perto de onde hoje e a Ultrafarma, quem não se lembra da beatlemania, das filas enormes no cine Estrela (na Avenida Bosque da Saúde), para assistir ao filme dos Beatles, Help!
Quando criança as brincadeiras de rua, após o asfalto eram carrinho de rolimã, depois bicicleta, patins… Cada hora uma nova onda, futebol todos os dias. Quem não se lembra do Pelé, do Garrincha, do goleiro Gylmar, das copas do mundo, dos papos intermináveis nas barbearias onde só entravam homens, dos bailinhos na adolescência … Sempre tinha um na casa de um amigo, ao som Jet’aime. Na época a censura da ditadura militar vetava tudo, Beatles e luz negra, as “minas” e os “amassos”, dançando com todo respeito, conforme a época.
Mc Donalds nem pensar, a lanchonete da época era o Osnir na Avenida Jabaquara, que ainda funciona. Pepsi, coca cola, hambúrguer, banana split. O hit do momento era a pista de autorama enorme que ficava na frente do cine Nilo, a molecada não saia de lá.
Era uma delicia empinar pipas, nada de cortante. As festas juninas eram feitas sempre, com fogueiras na rua antes da chegada do asfalto, a rua toda participava doando prendas, atravessávamos à noite comendo quitutes da época, conversando e correndo atrás de balão sob intensa neblina, não sabíamos o que eram drogas ou ladrões.
Quem viveu nas décadas de 50, 60 e 70 sabe que foram os anos dourados do século XX na cidade de São Paulo, inesquecíveis!
Lembrei-me da minha primeira comunhão, ministrada pelo Padre Olavo, meu casamento foi nesta igreja de Santa Rita de Cássia anos depois, lembro-me de que todo domingo, no salão da igreja, havia uma sessão de cinema para a garotada com filmes e desenhos do Walt Disney, por falar em cinema quem não se lembra do cine Estrela, do cine Nilo, do cine Jamor e do cine Sabará sempre lotados, da padaria Amarantes, na esquina das ruas Domingos de Moraes e Luiz Góis, ou do Brazeiro, que até hoje esta atendendo aos seus clientes na Luiz Góes
As feiras livres do bairro eram muito boas, o primeiro mercado foi o Peg Pag e ficava também na Rua Luiz Góis, antes tínhamos apenas as mercearias. Era tudo a granel, para comprar o óleo era necessário levar o litro, e teve a época em que o leite era comercializado em garrafas de vidro e o pão e o jornal chegavam bem cedo às portas das casas, e ninguém mexia.
Na Rua Luiz Góis tinha também a farmácia Marques, do senhor Horacio perto da rua das violetas, sempre que me arrebentava com bicicleta ou em outras brincadeiras ia até lá fazer curativos. Saudades da pizzaria Paulino ou Planalto (não me recordo bem o nome) na Avenida Casemiro da Rocha, das coleções eternas de gibis: Tio Patinhas, Pato Donald, Zé Carioca, Mandrake, Fantasma, Capitão América, Tarzan, os álbuns de figurinhas, sempre compradas na banca de jornal do Joaquim, que ficava ao lado da padaria Orleans, na Avenida Senador Casemiro da Rocha.
Lembro-me do bafo com a turma e os montes de figurinhas, bolinhas de vidro coloridas de gude, partidas inesquecíveis, e da compra do primeiro aparelho de televisão com imagens em preto e branco, e depois a colorida.
Lembro-me das séries Perdidos no Espaço, Almirante Nelson, Viagem ao Fundo do Mar, Túnel do Tempo, A Feiticeira, Os Três Patetas, Zorro, Os Incas Venezianos, Além da Imaginação, Bonanza, Vigilante Rodoviário, Capitão Sete, e dos os grandes shows da TV Record, Excelsior, da Tupi, os festivais MPB da Record e tantas outras coisas.
E a “muvuca” da vizinhança quando algum vizinho aparecia com um carrão novo: DKW Vemag, Simca, Gordini, Fusquinha era o que mais tinha, LTD, Landau, Dodge Dart, Opel.
E a ida ao primeiro Shopping Center de São Paulo? O Iguatemi e depois o Ibirapuera, lugares deliciosos para passear e paquerar, sem contar o parque do Ibirapuera, aonde a turma ia direto andar de bicicleta, as visitas no planetário…
Acho que escrevi demais, últimas palavras que saudades, hoje minha casa não existe mais, foi derrubada, meus pais já faleceram e moro atualmente em uma cidade na Grande São Paulo. Muitas saudades do Bairro.
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