Có có có có ró co co / Có có có có ró co co / O galo tem saudades / da galinha carijó
Marchinhas de Carnaval, quantas saudades! Outro dia, conversando com minha esposa e companheira, em virtude da minha preparação para concorrer no Concurso Nacional de Marchinhas Carnavalescas da Fundição Progresso e Rede Globo, cantarolei algumas marchinhas dos velhos carnavais.
Comecei lembrando-me de uma marchinha que dizia: “A princesa encontrou/ seu grande amor/ e quis casar./ Mas a corte não deixou/ por que o tal/ não é real./ De que vale ser princesa então?/ Ter palácios só pra inglês ver?/ De que vale governar/ e não mandar em seu coração?”
Passei depois para outra marchinha que dizia assim: “Me dá um gelinho aí/ que estou a 100 por hora./ Se não pássaro calor ô ô/ Eu jogo a roupa fora”. Depois veio aquela que dizia: “Ei você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro ai…”.
Sempre fui um carnavalesco de primeira linha e as marchinhas de carnaval eram, juntamente com os sambas, decoradas por mim de imediato.
Depois o “carnaval espetáculo”, marca registrada do Rio de Janeiro, foi se alastrando, tomando conta de outras Capitais e se tornando um verdadeiro produto de exportação. Chamariz de turista ávido por corpos com pouca (ou nenhuma) roupa balançando ao som do batuque de um samba enredo que, em minha opinião, já não tem mais o andamento de samba e lembra muito uma marchinha mais cadenciada, porem não tão cadenciada como a marcha-rancho.
Essa mudança, constatei, retirou das ruas o carnaval verdadeiro, cheio das alegrias e galhofas, às vezes inocentes, que permitiam ao povo, inclusive, das classes menos privilegiadas, extravasar suas emoções, esquecendo, por poucas horas, todas as tristezas e inquietações sofridas.
O carnaval puro, o entrudo que veio da Europa para se naturalizar brasileiro de quatro costados, tendo como seu hino nacional o Abre Alas de Chiquinha Gonzaga, foi banido de nossas vidas. Então, ainda sentindo a frustração do desaparecimento desse carnaval me perguntei e questionei minha esposa:
– “Será que foram as Escolas de Samba que eliminaram essa festa? Será que foi a violência que a cada dia grassa mais a culpada?”.
Acho mesmo que foi um pouco de tudo isso que roubou a alegria verdadeira dos três dias de reinado de Momo. Se fosse eu um mandante prestigiado, um político de renome, ou até, um apadrinhado da presidente (a?) iria lutar para antecipar o grande espetáculo das Escolas de Samba, por alguns dias, quem sabe uma semana e exigir que o povo viesse paras as ruas, que os Blocos do “Sujo” ocupassem seus lugares de destaque nos três dias de alegria e que as grandes sociedades voltassem a promover seus bailes carnavalescos e seus concursos de fantasia. Que os compositores voltassem a compor marchinhas carnavalescas e que os cantores voltassem a gravá-las.
Já pensaram em quantas famílias poderiam voltar a sobreviver dessas medidas? Qual o que. O passado só volta para os velhos intransigentes como eu, os moços não sentiram o gostoso prazer dos carnavais, e não podem almejar senti-lo agora. Eles nunca viram o Cordão Carnavalesco Vai-Vai desfilar, com todo o seu esplendor e pujança na Avenida 9 de Julho, ou no Anhangabaú, ou na Avenida São João, ou mesmo nas ruas do Bexiga. Não viram ou participaram dos grandes e tradicionais bailes de carnaval dos clubes de Sampa (Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Portuguesa) ou dos salões tradicionais como Royal, Professorado, Araken, Paulistano, Mauá entre tantos. Sem chances!
Vou continuar cantarolando, sozinho, no meu canto: “Linda loirinha/ loirinha que me faz sonhar… Eu sou o pirata da perna de pau/ do olho de vidro/ da cara de mau… Eu fui às touradas de Madri/ parabatchibunbubum/ Quem sabe sabe/ Conhece bem/ Como é gostoso gostar de alguém… Maria Escandalosa/ desde criança/ sempre deu alteração… Se a canoa não virar/ olé olé olá…”.
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