Anos 40 – Invernos

Foram desoladores os invernos da nossa infância, na primeira metade dos anos 40. Fazia frio, muito frio mesmo. Pelos morros, de manhãzinha, o capim gordura e o capim “barba-de-bode” amanheciam embranquecidos pelo orvalho e, muitas vezes, murchos e queimados pela geada. <br><br>A garoa fina e persistente caía, intermitente, dia e noite, tornando os dias aborrecidos e sonolentos e as noites intermináveis, tristes e vazias. O único consolo para a garotada era agasalhar-se para curtir as histórias em quadrinhos do Globo Juvenil.<br><br>Não dava para colocar o nariz na rua. O máximo que podiam fazer era cumprir o doloroso dever de ir á escola. Nada de jogo de bola, embora o que não faltasse fossem terrenos baldios para isso. Banho nas claras correntes do Cabuçu, nas águas tranquilas da Lagoa Azul ou nas da perigosa “Descoberta” nem pensar! Era o inverno presente para agravar ainda mais os já angustiantes problemas decorrentes da guerra.<br><br>A Vila Maria Alta era praticamente desabitada e o Jardim Japão possuía algumas casas na Avenida das Cerejeiras e nas proximidades da atual Praça Nipon. Daí em diante não havia mais nada. Os morros, suavemente ondulados, dos altos de Vila Maria, Vila Medeiros e Jardim Japão, eram cobertos por mato pouco denso onde imperavam o capim gordura, o “barba-de-bode” e o sapé. Também se multiplicavam os arbustos produtores de deliciosas frutas, como as gabirobas, araçás, pitangas, joás e amoras, que faziam a alegria da molecada, nos raros momentos de tempo bom.<br><br>Foi um tempo de vacas magras. Tempo de guerra! Embora o Brasil somente tivesse entrado no conflito em 22 de agosto de 1942, os efeitos da guerra na Europa refletiam na nossa economia de maneira drástica. Faltava gasolina e os poucos caminhões e automóveis que teimavam em circular, funcionavam a gasogênio, o que os obrigava a transportar uma carga extra em suas traseiras. Dois enormes cilindros produtores do gás.<br><br>Faltavam o açúcar, o sal, o pão, a carne e a maioria dos suprimentos de primeira necessidade. A população improvisava sua sobrevivência como podia e usando de criatividade até podia sair-se bem. Tudo era comprado nas poucas na poucas vendinhas que por aqui existiam. Tudo era marcado na caderneta e, no fim do mês, os fregueses mais pontuais eram presenteados pelo vendeiro com uma lata de marmelada ou um litro de vinho barato.<br><br>Nos fundos dos quintais havia sempre um galinheiro. As galinhas satisfaziam em parte a necessidade de carne. Eram criadas soltas, ciscando nos terrenos baldios e, vez ou outra, recebiam um adicional de milho ou quirela. <br><br>Em cada quintal havia ainda um forno de barro onde, na falta do trigo para o pão, passavam-se broas de fubá ou mesmo de farinha de milho, da mais grosseira. A falta de açúcar de cana podia ser compensada com açúcar mascavo ou mesmo com rapadura. Já o sal não tinha jeito, era necessário contentar-se com o que se podia obter usando os escassos talões de racionamento. <br><br>As únicas coisas que realmente não faltavam por aqui eram o leite, algumas frutas e verduras. O leite podia-se obtê-lo, fresquinho, na vacaria do Seu Chico e da Dona Zica (Francisco e Luzia Batista), lá na Rua Abel Ramos ou na vacaria do Quedas, ali na Rua Gastão Madeira, em frente ao local onde atualmente temos um viveiro de plantas da subprefeitura. <br><br>Verduras eram produzidas nas várzeas. Peras e caquis eram cultivados em algumas chácaras na Vila Medeiros e eram vendidos pelas ruas do bairro, pelos próprios produtores. Alguns hão de lembrar-se ainda da lendária Dona Dulce, que em sua charrete apregoava suas frutas pelas ruas do bairro. Havia sempre um contingente do CPOR (Centro Preparatório de Oficiais da Reserva) acampado por estas bandas, na Biquinha ou na área do atual Parque Oyeno, ao longo do córrego do Novo Mundo, que ofereciam bons espaços planos para as barracas e, no entorno dos quais, existiam morros ideais para a prática de exercícios bélicos.<br><br> A água era também abundante e jorrava cristalina das inúmeras nascentes nas vertentes dos morros ou nos "olhos d'água" que brotavam do chão, na várzea. No outeiro, entre as atuais Rua Osaka e Via Dutra, havia um grande capão de mato, conhecido como "Mata do Ayres". Dessa mata a população e também os soldados acampados extraiam a lenha para os seus fogões. O português, ao que parece, não gostava muito de ser assim espoliado, mas prudentemente colaborava. Ia-se a lenha, mas, em compensação, ficava o orgulho de uma patriótica contribuição ao esforço de guerra. <br><br>Nas noites de "blackout" muitas pessoas, apesar do mau tempo, dirigiam-se à Avenida Alberto Byington, naquela época ainda denominada Avenida Quatro, para apreciar o belo espetáculo oferecido pelos holofotes instalados sobre o edifício Martinelli, no centro. Do topo do edifício cor-de-rosa, então o mais alto da cidade, os holofotes varriam o céu da paulicéia em todas as direções. Seria mero exercício ou estariam à procura de algum avião inimigo? Os aviões da Lufwaffe, como a desafiar a paciência de tão atentos esquadrinhadores, jamais apareceram por estes céus de Piratininga. Ainda bem! Parece que os Stukas estavam ocupados demais na Europa.<br><br>Foram tempos difíceis, mas estávamos a salvo. De fato estávamos bem longe dos catastróficos bombardeios que arrasavam toda Europa e, ainda mais, tínhamos aos domingos um belo futebol no Palestra ou na "Fazendinha", onde as extraordinárias defesas de Oberdam ou os dribles mágicos de Servílio faziam vibrar multidões.<br><br>Multidões que se deixavam embalar também pelas vozes de Carmem Miranda, Orlando Silva e Chico Alves, grandes sucessos da época e que, no cinema, maravilhavam-se com os sonhos importados de Hollywood. O “American way of life" chegava à tribo tupiniquim através da "Política da Boa Vizinhança" e, de certa forma, ajudava a enfrentar a crise Apesar das dificuldades, nosso povo sempre deu um jeito de sobreviver, tendo na esperança sua virtude maior e genuína.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>