<br>As frescas tardes de primavera na velha Rua Santo Antonio eram um convite ao “dolce far niente” para alguns desobrigados das grandes responsabilidades, assim como eu, adolescente e ainda sem uma ocupação profissional.<br><br>Estávamos no final da década de 70 e o movimento em minha rua já era um constante vai e vem de pessoas e carros que se utilizavam daquela artéria para chegarem ao centro da cidade ou as periferias do bairro da Bela Vista e outros avizinhados.<br><br>Por um momento, observo a aproximação de um Galaxie LTD vermelho com teto de vinil preto. Dentro dele esta um rapaz com grandes cabelos encaracolados, escondido por detrás de um par de óculos escuros e portando um cachimbo em uma das mãos.<br><br>Com vestimentas bem discretas e deixando transparecer a jovialidade da moda, calça jeans e camiseta ao estilo americano, o condutor do belo veículo nada tinha de rebelde e quase sempre passava sem ser notado pela porta de minha casa.<br><br>Sim, era ele mesmo, o nosso rei Roberto Carlos que regressava de algum lugar em nosso bairro, depois viemos a saber que seu destino sempre fora a casa de sua primeira esposa Nice, mãe do Segundinho e Luciana, além de Ana Paula, filha de seu primeiro casamento.<br><br>Não havia como eu estar enganado pois os dois grandes anéis em seus dedos e a inconfundível pulseira com seu nome em relevo denunciaram-no no breve instante de congestionamento que o obrigou a parar quase que em minha frente.<br><br>Fitei-o por uns instantes e ele a mim e, depois de um discreto sorriso acompanhado de um aceno, ensaiei a sua tradicional curvatura e, com o dedo em riste exclamei:<br>- “É uma brasa mora…”<br><br>Seu carro já ganhava movimento novamente e as pessoas que por mim passavam acreditavam que eu estava tendo um surto insano de palco do programa Jovem Guarda.<br><br>Uns se espantavam e outros sorriam achando aquele átimo de espetáculo algo gozado ou divertido. Meus olhos acompanhavam o movimento do carro do Rei até a esquina do Viaduto Martinho Prado. Por vezes ele fez este trajeto e, ao passar em frente de minha casa buscávamos um pelo outro e, como numa silenciosa intimidade, sempre nos cumprimentamos em mudas mensagens onde, somente os nossos olhos expressavam alguma comunicação, mesmo os deles, por detrás dos óculos escuros.<br><br>Veio o seu casamento em Santa Cruz de La Sierra, com direito à transmissão exclusiva pela televisão e a forte narração do repórter Tico-Tico, seguindo-se da residência no bairro do Morumbi.<br><br>O Galaxie LTD nunca mais passou pela velha Rua Santo Antonio e o seu famoso e solitário condutor nunca mais foi visto por aquelas bandas. Talvez tivesse mudado de automóvel ou buscado outro itinerário mas, o certo era que, agora o Rei não estava mais solitário. Havia alguém para compartilhar sua companhia.<br><br>Aqui na Bahia, onde atualmente vivo, meu veículo pessoal é um Galaxie Landau 1980. Ainda que não seja da mesma cor do automóvel do Robertão, o toca cd tem em sua os mais variados sucessos do Roberto Carlos e dos Beatles.<br><br>Outros famosos já se fizeram presentes nas ruas do bairro. Desde Agostinho dos Santos, saudoso nativo do bairro, à Zezé Motta, todos renderam-se as maravilhas do Bexiga, bairro de tradições culturais e artísticas, cortado por ruas e vielas calmas e tranquilas.<br><br>Seus antigos moradores trazem consigo a história da migração estrangeira, o que faz do lugar uma miscelânea da geografia mundial.<br><br>Quanto ao Rei, ele hoje mora no bairro da Urca, no Rio de Janeiro e toca a sua vida com as belas composições de seu repertório musical e nossos encontros só se dão uma vez a cada ano, quando é apresentado o seu especial de fim de ano na televisão.<br><br>Espero que um dia ele possa compor uma canção em homenagem ao bairro que, acredito eu, teve um forte significado em sua vida, se não for pedir demais.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>