Excertos de minhas memórias de 1946 a 1948

Quando voltava da escola, antes do almoço, passava em frente ao ferro-velho da estrada do aeroporto (atual avenida Ascendino Reis, onde é, hoje, o final da Av. Senna Madureira) e todo dia ouvia o som de St. Louis Blues March, de Glenn Miller, que servia de tema de abertura do programa Parada de Sucessos e que o sucateiro ouvia sempre. Durante o almoço ouvíamos Cadeira de Barbeiro. O programa era uma crítica aos políticos e costumes do País. O tema musical do programa era Nola, executada por Liberace. Nas noites de verão papai colocava o rádio na janela da sala e levava cadeiras pra fora. Os vizinhos apareciam para ouvir programas como "Desafio aos catedráticos", "PRK-30", "Zé Fidelis", "Grande jornal falado Tupi" e outros. Nos intervalos dos programas vinham os reclames de Flit, Cafiaspirina, Detefon…

Meus padrinhos vieram de Guaraci para passar uns dias conosco e num domingo fomos a Santos para que eles conhecessem o mar. A viagem foi pela E. F. Santos a Jundiaí. Vi, pela primeira vez, borboletas azuis que abundavam na Serra do Mar. Nada havia em Cubatão que causasse poluição. Era só mais um pequeno município. Os homens de terno de linho, gravata e chapéu panamá. Fazia muito calor e meu padrinho suava em bicas. Fizemos a travessia de balsa para o Guarujá, visitamos a praia, onde comemos o frango com farofa que mamãe havia preparado, e voltamos para São Paulo à noite. Típicos farofeiros!

De vez em quando saía da escola e pegava o bonde Domingos de Morais. Era daqueles abertos e grandes, com dois trucks de 4 rodas cada, ao contrário dos da linha Bosque da Saúde, que eram pequenos e tinham só 4 rodas. Tinham estribos dos dois lados. Eu subia no bonde nalgum lugar longe do condutor – condutor era quem cobrava; quem conduzia o veículo era o motorneiro – e quando este vinha cobrar eu passava pro estribo do outro lado. Um dia o condutor cismou de me pegar e, pra me livrar dele, saltei do bonde andando. Ganhei umas esfoladuras. O bonde pequeno, de 4 rodas, era usado principalmente em linhas em que não havia balão de retorno. Chegando ao final da linha a alavanca que ligava o bonde ao fio era virada para o outro lado, o estribo esquerdo baixado e o direito levantado e as barras de contenção posicionadas de acordo Sobre os condutores havia uma gozação. Eles cobravam a tarifa e acionavam uma alavanca ligada a uma barra que acionava um contador instalado no alto da parte da frente. A cada movimento da alavanca um sino acusava uma tarifa. Costumava-se dizer: "Dim, dim, dois pra Light e um pra mim". Os bondes fechados e com catraca estragaram a piada (e a boquinha deles).

Tio Ignacio contava que certa vez, no largo Treze de Maio, em Santo Amaro, subiu no bonde um bêbado conhecido no bairro. Havia muitos estudantes no bonde e logo eles passaram a debochar do homem. A certa altura este se levantou e perguntou aos rapazes: "- Vocês são filhos de Santo Amaro?". Um deles, levantando-se também, disse: "- Eu sou!". E o bêbado: "- Então você é um filho-da-puta, pois Santo Amaro não era casado!".