“Sobre um tapete mágico eu vou cantando
Sempre um chão sob os pés, mas longe do chão…
Sobrevôo a Baia da Guanabara
Roço as mangueiras de Belém do Pará
Paro sobre a Paulista de madrugada…”
Penso nos versos de Caetano ao pisar, como na música, alguns metros acima, não só da Paulista, da Guanabara, mas das linhas de Nazca, no Peru; da Ilha de Marajó… Ali estão as pirâmides maias, ali a selva amazônica, ali a Ilha de Cuba, ali galeões e transatlânticos nas zonas costeiras. A Ilha de Páscoa, com seus misteriosos moais, enigma nunca solvido.
Onde? Sobre um mágico tapete de vidro, na seção de folclore do Memorial da América Latina. Ali somos recebidos por uma enorme mão espalmada. Poderia significar “Pare”, mas de sua palma corre um filete de sangue. É América Latina que nos recebe, convidando a partilhar de seu sangre “caliente”, tantas vezes derramado em guerras coloniais e territoriais, sob caudilhos e ditaduras truculentas. Índios, espanhóis, portugueses, franceses, holandeses, negros, suaram e morreram em e por seu vasto território.
Ao redor do piso, magnífica coleção de máscaras, esculturas, jóias e cerâmicas dos diversos paises. Chapéus, Panamá, vizinhos das árvores da vida peruanas, dos esqueletos mexicanos, La Muerte em papel machê, dos presépios bolivianos, dos entalhes mineiros.
Trajes rituais, carantonhas em madeira, mamulengos nordestinos. Potes e louças resplendentes em sua poderosa rudeza.
Riqueza folclórica infinita, brotando do solo regado a sangue, símbolo da exuberância latina, do exagero nos sentimentos e tudo mais, sangue transmutado em ouro, bronze, barro, madeira, papel, pano.
Na saída, ao lado, o restaurante. Somos recebidos por outro latino, este mais próximo ainda do Lácio: um senhor italiano, pai de irrequieta filhinha, que bem poderia ser sua neta.
Mas, não vamos comer; contentamo-nos com um expresso, enquanto converso com mais este que veio tentar a vida no Novo Mundo, e já com suas aventuras para contar daqui, como um dos antigos conquistadores. Desejo-lhe boa sorte, na ampla mão espalmada da America Latina.
As obras de Niemeyer nos cercam das redondezas, os vastos espaços vazios, as palmeiras geometricamente alinhadas com o concreto como numa paisagem abstrata, num quadro de Picasso, ou Braque.
Afastamo-nos, e agora, en la distancia, a grande mão parece nos dar adeus.
Ou até breve, nobre Memorial.
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