Minha primeira infância na Rua São Vicente, na Bela Vista, foi repleta de eventos, personalidades, ações que ficaram indeléveis em minha memória. Estranho, porque foi na primeiríssima infância mesmo. Isso quer dizer, há muito tempo.<br><br>Não consigo identificar se tudo aquilo teve tanta importância quanto acredito ou se o tempo se encarregou de dar mais importância do que os acontecimentos ou as pessoas realmente tiveram para minha vida.<br><br>Misturam-se cenas como as visitas do cantor Agostinho dos Santos e do jogador de futebol Ponce de Léon, ambos amigos de meu irmão. E chegam também imagens da cadelinha Biriba, vira-lata fidelíssima e feia como ela só.<br>E tantas, tantas outras.<br><br>Como sou o que se chama de "filho temporão" (esquisto!) não há quase mais ninguém que tenha testemunhado tudo aquilo para dirimir minhas dúvidas. Porém, tem uma lembrança. Somente uma e com uma clareza ímpar. <br><br>Como um filme e todas suas características: som, enquadramento de câmera, começo, meio e fim. Assim: Logo cedo, duas vezes por semana, ao menos, eu ouvia o badalar de uma sineta bem rústica. Pronto! Era suficiente para que eu saísse em desabalada carreira para o portão de casa e me instalasse por lá.<br><br>A casa ficava em uma pequena ladeira (Rua São Vicente, esquina com Treze de maio) e as cabras preguiçosas, puxadas insistentemente pelo tratador, demoravam a chegar. Mas vinham. Lentamente. Muito mais devagar que a minha ansiedade.<br><br>Antes das cabras, chegava minha mãe. Caneca em uma das mãos e o dinheiro amassado na outra. Um leite fantástico. Sem pasteurização. Sem conservantes. Sem nada… Só leite.<br><br>Aquela caneca era a medida. Mais uma? Nem pensar…<br><br>O "bigode" branco, formado pelo leite em meu rosto, ficava por lá até a hora de tomar banho e ir para a escola.<br><br>Tudo bem, eu confesso: na verdade, sobre o bigode, não lembro, não. Acabei de inventar!<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>